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Trânsito & Infraestrutura Zero a 300

Você sabia que existe relação entre mercado, corrupção e segurança no trânsito?

Você já se perguntou como a Alemanha consegue combinar rodovias com trechos sem limites de velocidade e um baixo índice de mortalidade? Já parou para pensar que, mesmo sem obrigar seus motoristas a usar cinto de segurança, os EUA ainda têm menos mortes no trânsito que o Brasil? E que apesar de tantos dispositivos legais para impedir uma carnificina motorizada, é exatamente isso o que acontece no Brasil? Por que alguns países têm um trânsito mais civilizado que outros?

Resista ao impulso de apelar ao argumento da cultura. Esta seria uma resposta fácil, mas uma cultura não acontece espontaneamente da noite para o dia. Ela nasce de uma série de fatores que condicionam o comportamento, os costumes e ações de um grupo social. Os motoristas alemães não são rigorosos no cumprimento das leis porque nasceram assim. Há um contexto sócio-cultural que transformou esse rigor em cultura e os faz agir desse jeito.

 

A cultura no trânsito

Partindo do princípio de que o trânsito é feito, em sua essência, de relações entre pessoas, o economista americano George McDowell propôs uma teoria segundo a qual o comportamento das pessoas no trânsito em determinado país tem relação com sua estrutura econômica de mercado. Sim: uma relação entre economia e comportamento. Para exemplificar sua teoria, McDowell comparou o comportamento no trânsito dos EUA ao da China e as diferenças no mercado dos dois países.

Na China os motoristas tendem a “negociar” a passagem em cruzamentos. À medida em que se aproximam da interseção, eles apenas reduzem a velocidade e vão passando como conseguem. Cedem a passagem, ganham a passagem, esperam outro motorista passar, são aguardados por outro motorista e assim vencem o cruzamento. Segundo McDowell, essa bagunça negociada vem de uma tradição empreendedora dos chineses. Para eles, o preço da etiqueta é apenas uma sugestão, pois o preço final é sempre negociado. Se você aceita pagar o que está na etiqueta, a vantagem é do vendedor. Se você pede desconto e negocia, consegue pagar menos. E isso se repete no trânsito: quando um motorista “fura” a preferencial, o motorista “furado” enxerga como uma “derrota” pontual em uma negociação.

Nos EUA é comum haver cruzamentos sem semáforos ou rotatórias (os americanos não usam rotatórias) e o negócio funciona: a preferência é de quem chegou primeiro e/ou está à direita. E isso funciona, novamente, porque os americanos enxergam as transações comerciais como “abertas”, mas não “livres”. Ou seja: há regras de conduta e ética — formais e informais — nas negociações. Se você já assistiu as negociações de Trato Feito, Dupla do Barulho e outros programas de compra e venda dos EUA, certamente já notou como os caras jogam limpo, abrindo seus custos e intenção de lucro sem questionamentos da outra parte. Isso acontece porque a franqueza, a honestidade e o senso de justiça são valiosos aos americanos. E eles esperam esse fair play dos outros motoristas no trânsito. É por isso que um motorista fura-fila é tão mal-visto nos EUA.

Ok, é no Canadá, mas o comportamento é parecido: o sujeito desce do carro para dar uma bronca no motorista que cortou sua frente

Claro, a cultura de um país não pode ser resumida a uma característica de seu mercado, mas a teoria observa comportamentos análogos que ajudam a explicar de forma plausível as diferenças de comportamento no trânsito. Mas há uma outra hipótese sobre as diferenças culturais: a relação entre corrupção e a violência no trânsito.

Segundo os economistas Nejat Anbarci, Monica Escaleras e Charles Register, quanto mais corrupto um país, maior o índice de mortes no trânsito. Para exemplificar, eles usaram o países extremos da lista de percepção de corrupção da Transparency International (TI), Finlândia e Nigéria.

Na Finlândia, a corrupção é tão baixa que o governo pôde propor um sistema de multas baseado na renda do motorista sem se preocupar com o risco de propinas dos policiais — quanto mais altos os valores das multas, mais à vontade um corrupto se sente para agir, uma vez que a recompensa será maior. Na Nigéria, os policiais e fiscais de trânsito competem entre si por propinas, chegando ao ponto de criar “checkpoints” nas cidades. E ainda que se possa argumentar que o desenvolvimento sócio-econômico destes países é diametralmente oposto, a relação é observada até mesmo em países desenvolvidos, como a Holanda e a Bélgica, que são culturalmente semelhantes por sua proximidade geográfica e demográfica e também com PIB semelhante. Na Holanda, que está em 8º lugar do ranking de corrupção da TI, o índice de mortes no trânsito por 100.000 habitantes é de 3,4, enquanto na Bélgica, que aparece em 16º lugar, o índice é praticamente o dobro: 6,7 por 100.000 habitantes.

 

Como a corrupção pode afetar a segurança?

A corrupção influencia negativamente a segurança viária de várias formas e em todos os níveis. Em países corruptos os agentes de trânsito sentem-se mais confortáveis para cobrar propinas — especialmente quando os valores das multas são altos. Imagine, por exemplo, que uma multa por dirigir embriagado custasse R$ 2.934,70 e te impedisse de dirigir por 12 meses — e que esse mesmo valor fosse o salário básico de um agente de trânsito. Um corrupto se sentiria à vontade de cobrar, digamos, metade deste valor para fingir que nada aconteceu pois ele sabe que o infrator terá um prejuízo maior se não pagá-lo. Ele oferece a oportunidade pois a chance de sucesso é alta. A corrupção institucional também permite que motoristas sejam habilitados sem preparo mediante propinas e que fiscais corruptos liberem veículos irregulares e inseguros.

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Mais ainda, a corrupção em altos escalões coloca em xeque a credibilidade dos organismos de trânsito, dos gestores da infra-estrutura rodoviária e até mesmo a intenção da legislação de trânsito. E aqui voltamos ao exemplo da Bélgica: segundo um estudo do economista belga Lode Vereeck, a população de seu país tem resistência à aceitação da legislação de trânsito e ao cumprimento delas porque não confiam no sistema que cria e fiscaliza as leis. Como acreditar que a intenção do gestor de trânsito é honesta?

 

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