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Car Culture História

Volante, pedais e alavancas: uma breve história de como dirigimos hoje

É seguro dizer que todos os carros vendidos hoje no mundo sejam operados por um pedal de acelerador à direita, freio ao centro, talvez uma embreagem à esquerda e o câmbio no túnel central. Tudo convenientemente posicionado para que o ato dirigir seja o mais espontâneo o quanto possível. Esta noção está fortemente enraizada no consciente coletivo, de modo que é difícil imaginar que o ato de dirigir nem sempre foi assim.

Os primeiros carros eram extremamente difíceis de comandar. Alguns deles nem mesmo tinham volante — no início, os carros usavam alavancas para mudar a direção, como o leme de um barco. O Benz Patent-Motorwagen, de 1886, amplamente aceito como o primeiro automóvel do mundo, era um dos que usavam este tipo de controle.

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Clément-Panhard Type VCP Voiture Légère, um dos primeiros carros de passeio com volante

Só mais tarde surgiu a ideia de usar um volante para controlar a direção dos carros. Um dos primeiros exemplos conhecidos é o francês Alfred Vacheron, que em 1894 competiu em uma corrida entre as cidades de Paris e Rouen — uma “corrida para carruagens sem cavalos” — usando um Panhard et Levassor com um volante circular. Quatro anos depois, a Panhard incorporou a ideia a seus automóveis.

 

Evolução e revolução

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Nos primeiros anos do automóvel os fabricantes testaram diferentes configurações de controles e comandos, e não havia um consenso a respeito da maneira ideal de distribui-los em um carro. O Ford Modelo T é um dos exemplos mais emblemáticos dessa era.

Introduzido em 1908, o Modelo T já tinha um volante, e até três pedais. Mas eles não eram embreagem, freios e acelerador, e sim um esquema bem mais complicado: o pedal da esquerda serve para trocar as duas marchas para a frente, enquanto o pedal do meio engata a ré. O pedal da direita é o freio, e não o acelerador. Para acelerar, você precisa acionar a alavanca à direita do volante, enquanto a alavanca da esquerda controla o ponto de ignição. Se não entendeu, leia de novo. Se continuar sem entender, desista — para nossa sorte, ninguém mais no mundo precisa saber dirigir um Modelo T.

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Não se iluda, os três pedais são completamente diferentes do que você imagina

Já sabemos que o Ford T foi o primeiro carro verdadeiramente popular da história, e isto é de importância imensurável. Ele foi vendido até 1927 e, em seu auge, metade dos carros do mundo eram Modelos T (cerca de 10 milhões de unidades). Mas, para nossa sorte ainda maior, o layout de comandos do T não pegou.

Sem dúvida o Ford Modelo T causou uma revolução no modo como se produzia automóveis, e o método de linha de montagem criado por ele persiste até hoje. Mas o carro em si não trazia nenhuma evolução no modo como enxergamos os automóveis hoje — nenhuma nova solução de engenharia, apenas mais um carro complicado de guiar e com partida por manivela, como tantos outros carros da época.

A evolução precisava continuar.

 

A (re)invenção do automóvel

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Hoje em dia todas as fabricantes de automóveis vigiam os movimentos umas das outras praticamente em tempo real — graças à internet, à comunicação instantânea e todos os recursos tecnológicos que foram criados ao longo das décadas para chegar ao que temos hoje. Só que no início do século 20 não existia nada disso, e as ideias originais eram verdadeiramente originais.

A Cadillac é uma divisão da General Motors desde 1909, mas sua origem está nos restos da Henry Ford Company, que também deu origem à Ford Motor Company depois de se dissolver. Em 1916, a Cadillac lançou o Type 53, que foi o primeiro carro no mundo com um pedal de embreagem à esquerda, um pedal para os freios no meio, acelerador à direita, alavanca de câmbio ao lado do motorista, freio de estacionamento logo ao lado e uma chave de ignição no painel.

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Está tudo ali: volante, alavanca de câmbio, os três pedais, freio de mão e chave de ignição. Não é uma beleza?

Em um episódio da décima temporada de Top Gear, em 2007, Jeremy Clarkson e James May saíram em busca do Cadillac Type 53, e mostram que, de fato, ele é o carro mais antigo que alguém pode dirigir sem antes precisar fazer um curso intensivo de uma semana — e, como os dois disseram, talvez a Cadillac não tivesse noção à época de que estavam definindo para sempre o modo como dirigimos.

 

Tempos modernos

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O Cadillac Type 53 não chegou a 1917 — foi substituído pelo Type 55. Antes da Guerra, porém, os Cadillac eram carros caros, de luxo, e nem todo mundo tinha acesso a eles. Não há como dizer com clareza como se deu a adoção dos controles apresentados no Type 53 mas, se eles persistem até hoje, certamente a aceitação foi boa.

O que se sabe é que o Type 53 foi lançado bem no meio da Primeira Guerra Mundial, e que depois dela vários países precisaram reconstruir sua economia — o que nos leva direto para o Reino Unido, terra da Austin.

Em 1922 a Austin já era uma companhia razoavelmente bem estabelecida. Naquele ano, a fabricante lançou o modelo de que a Inglaterra precisava: o Austin 7, um carro barato (custava quatro vezes menos do que um Type 53), compacto e econômico. Ainda naquele episódio do Top Gear, Clarkson e May nos mostram que o Austin 7 foi o primeiro carro popular da Europa e, enquanto os americanos ainda tinham o complicado Modelo T, o 7 usava o esquema introduzido no Cadillac Type 53.

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Saca a modernidade

Tendo feito muito sucesso na Europa e no Japão, o Austin Seven pode ser considerado o carro que popularizou os comandos modernos nos automóveis — tanto que o Ford Modelo A, sucessor do Modelo T lançado em 1927, também adotou o layout. E o resto, literalmente, é história — ainda que com algumas variações, como o Ford GT40. Feito com base em um projeto inglês — da Lola — e executado por americanos (Ford e Carroll Shelby), o primeiro GT40 tinha mão inglesa, mas o câmbio à direita. É como uma mão inglesa “para iniciantes”.

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Hoje não temos mais tantas revoluções como naquela época — as coisas são mais graduais. Foi assim com o câmbio automático, e certamente será com a partida sem chave e com as borboletas atrás do volante. Mas a ergonomia básica de um carro dificilmente mudará, e todo mundo deve isto a um Cadillac e a um popular Austin.

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Até mesmo quem inventou o automóvel.

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