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Project Cars Project Cars #403

Volkswagen SP2 1974: as voltas e reviravoltas da lanternagem do Project Cars #403

Olá, amigos de pé embaixo! Volto com a saga/epopéia que é a história da recuperação do meu VW SP-2 1974. Agradeço a publicação da primeira parte ter ocorrido na véspera de meu aniversário, foi um ótimo presente, equipe FlatOut! No artigo de abertura (aqui) eu havia contado como os carros estavam presentes em minha vida e os primeiros momentos com o meu VW. Agora a estória ganha outros contornos.

A proposta inicial seria eliminar uns pontos de ferrugem, fazer o chamado “banho de tinta” e rodar no carro, porque no geral ele estava bom. Mas bastou lixar o carro e o que apareceu foi de assombrar. Inicialmente o carro foi desmontado na casa do lanterneiro, e aí foi meu primeiro erro: deixar as peças se espalharem. Embora jovem, o lanterneiro era muito indicado, e pude ver ao longo do trabalho dele o capricho e atenção aos detalhes, o que garantiria um bom trabalho. Apenas a título de esclarecimentos, na minha região o profissional da área é chamado lanterneiro (talvez em razão daquelas lâmpadas usadas próximas ao trabalho) em vez de latoeiro ou funileiro.

2 - Lanterna

Regionalismos à parte, sigamos em marcha. Passados alguns dias ele achou uma oficina próxima a casa dele em que pudesse mexer no carro. Seria um local coberto, com espaço suficiente para o que fosse preciso fazer em termos de trabalho. Dado o endereço, lá compareci para ver o carro, e tive a “grata” surpresa de ver que o dono da oficina era o mecânico que eu havia despejado cinco meses atrás. Nessas horas vejo que valeu a lição dos meus pais para sempre sermos humildes e tratarmos bem os outros, sem soberba. O mecânico me reconheceu, claro, mas falou que eu era “gente boa” então estava tudo em ordem. A isso some-se a força de orações e tudo iria correr bem.

No entanto, a situação da lataria do carro era preocupante. A frente tinha indícios de alguma colisão, ainda que pequena, mas cuja recuperação não havia sido das mais cuidadosas e portanto a ferrugem tinha feito muitos estragos. Some-se a isso quase trinta anos de vida e o quadro era de corrosão na frente, caixas de ar e portas.

 

Nessas horas é válida uma importante lição: não deixe transparecer sua real condição financeira. Se o proprietário do carro for de poucos recursos, o lanterneiro vai te abandonar; se aparentar ser de posses, tudo será cobrado e por muito. Para recuperar essas peças, o lanterneiro sugeriu que talvez fosse melhor colocar outro profissional nesta missão, e, “coincidentemente”, o pai dele era um lanterneiro experiente e estava disponível para a empreitada. Agora eu tinha uma equipe trabalhando no meu carro! Claro que os custos aumentaram, mas o serviço teve sua evolução. O fato de contar com um profissional experiente foi útil, por exemplo, em relação à borracha de contato entre carroceria e assoalho, uma vez que este teve que ser substituído em sua parte dianteira. Não é o do meu, mas na falta de foto própria melhor, esta demonstra a área de contato.

2 - Assoalho

Como a estrutura básica é a mesma, tanto o assoalho quanto as borrachas vieram do Brasília, com os devidos ajustes. O detalhe é que o senhorzinho pediu que eu comprasse as borrachas originais, ou seja, em concessionária. E era para trazer duas. Lá fui eu, coração apertado, carteira gemendo, e pedi as duas borrachas. Fui atendido (e compreendido) pelo vendedor mais velho dali, o qual disse  ser possível pedir, mas teria que esperar cerca de duas semanas. O preço? O equivalente a seis latas de Coca-Cola (eu não bebo álcool) em uma boate. Não foi caro, mas isso é uma exceção em se tratando de SP-2. O resultado final valeu à pena.

E assim tudo seguia seu ritmo. A reforma lentamente, mas diante do estado do carro não havia o que reclamar, o dinheiro sugado de meus bolsos sem dó nem piedade até o dia em que foi preciso mudar de oficina, já que o mecânico tinha se enrolado com o aluguel (de novo!). E aí veio o segundo erro: não acompanhar de perto a mudança. O resultado? Todos os vidros foram parar numa pilha de entulho (e graças a Deus recuperados inteiros e sem trincas) e várias peças simplesmente “evaporaram”. Claro que isso tudo só seria percebido mais à frente, porque segundo pai e filho, tudo estava guardado.

Oficina nova, ritmo lento e a paciência encurtou. Já havia se passado mais de ano e o carro não estava nem preparado para a pintura! Claro, havia coisas complicadas, como o alinhamento dos faróis e para-choque, mas não era para tanto! Uma sugestão que eu dou (porque conselho ninguém leva a sério) é não comprar carro para recuperar a não ser que se faça por conta própria. Oficinas de lanternagem e pintura vivem dos trabalhos de giro rápido, e não de carros que ficarão meses ali. Estes ocupam espaço, tempo e o custo não pode ser muito alto senão o dono desiste. Como resultado, o carro a ser restaurado sempre perderá a vez para outros serviços de menor valor (mesmo que você pague em dia o combinado) mas que representam dinheiro entrando e clientela sendo formada. E mesmo que você fique ali diariamente, a não ser que assine a CTPS do sujeito ou vire o dono da oficina, não há como reclamar sobre a forma como o sujeito ganha a vida dele. Seu carro nunca será a prioridade da oficina.

Quando chegamos na parte dos faróis, tivemos uma complicação. A ferrugem era coisa do passado, a frente havia sido recuperada e corretamente alinhada, mas o para-choque foi problemático. No serviço anterior deram um jeito na peça e agora com a frente certa ela não se alinhava ao resto. O resultado foi ter que radicalizar na recuperação do para-choque do carro, mesmo porque se comprasse um pela internet, além de me custar um rim (que teria que ser vendido mais à frente, palavra-chave: pantográfico), corria-se o risco de ter problemas de alinhamento com a carroceria. O do meu carro foi cortado, realinhado e recuperado com fibra de vidro. Talvez algum purista me recrimine, mas era a solução possível no momento e que meu dinheiro permitia fazer.

Um detalhe importante e que “justifica” o preço absurdo que se pede pela peça, é que a máscara dos faróis do SP-2 não é igual à da Variant! São muito parecidas, mas não se confundam. Quase infartei quando o lanterneiro disse que estava tendo dificuldades para alinhá-la na carroceria: “se vira meu filho, isso custa mais que dois meses do seu trabalho”, pensei. Mas achei melhor ponderar para as habilidades dele e ter mais paciência com esse detalhe. Vejam a diferença:

2 - Frente original e Variant

Outra peça que num primeiro momento parece confundir é o chamado teclado do console, local destinado aos comandos de ventilador, intensidade do brilho do painel e pisca-alerta (obrigatório no Brasil a partir de 1974). Parece muito com um velho conhecido, mas que veio depois e com ele não se confunde: o Fiat 147:

2 - SP2 Teclado painel

A disposição é familiar, mas nem para uma substituição de emergência eles são compatíveis

Em geral as peças para o SP-2 são muito caras, o eram na época em que o carro foi fabricado e hoje os preços estão elevadíssimos. Basta ver o código “149” e saber que não vai ser barato. Hoje há uma procura tão grande por peças de SP-2 que já há várias réplicas, feitas a partir de peças originais, e que, se primam pela qualidade, também se destacam pelo preço. Portanto, para quem pretende comprar um SP-2, o que primeiro deve ser avaliado não é lataria ou mecânica, mas sim peças de acabamento porque é isso que vai determinar se seu carro é um VW SP-2 ou uma atrocidade para os mais puristas.

Particularmente, só não sou “zé-frisinho” porque a minha condição financeira não o permite, porque gostaria que meu carro fosse exatamente igual ao dia em que saiu da linha de montagem. Mas como nem sempre é possível, respeito o carro ao máximo, evito descaracterizá-lo mas faço o que for possível para que fique bom e funcione, que é meu objetivo. O acabamento é o ponto fraco, portanto, compre até sem caixa de câmbio, mas faltando acabamento, faça negócio com muita cautela e pesquisa prévia de disponibilidade da peça e preço.

Como exemplo, o meu veio sem o jogo de frisos de alumínio, composto por nada mais nada menos do que dez peças presas num baixo relevo ao longo da carroceria, com fita reflexiva, e que são a maior dificuldade de se encontrar. Normalmente quem vende tem algumas, não todas. Eu tive sorte: depois de seis anos (!) achei quem vendesse o jogo completo, enviasse para Minas Gerais e só me cobrasse o equivalente a três salários mínimos! Uma verdadeira pechincha! E eu tinha dinheiro para comprar! Agora era só comprar a fita reflexiva, que quando oferecida com material de boa qualidade custa cerca de meio salário mínimo mais frete. E não se iluda; como o carro é projeto nacional, nada de Ebay ou pedir para um amigo trazer na bagagem, só se encontra esses produtos no Brasil e ainda assim através de fóruns, sites especializados ou do MercadoLivre:

2 - Friso aluminio 2 - Friso aluminio 2

É o que acontece, por exemplo, com o limpador de para-brisas, que por ser exclusivo do modelo, e pantográfico, é um item muito raro e valorizadíssimo. Para se ter ideia, o do meu carro fica guardado em casa, porque é muito caro. E sabe porque eu sei? Porque tive que comprar, já que os meus foram perdidos! Lembram-se das mudanças de oficina? Várias peças se perderam ou foram negociadas à minha revelia, o que me obrigou a comprar muita coisa que meu carro tinha (era completo) ou ter que improvisar para que ele continuasse em condições de uso, como os cintos de segurança. Nesse caso, em favor da segurança, e aproveitando que o SP-2 já contava com cintos de três pontos, comprei já no final um jogo de cintos novos e retráteis.

2 - Limpador

O que aconteceu foi que meu lanterneiro, por motivos impublicáveis no FlatOut, acabou fugindo da cidade, não me deu qualquer notícia e largou meu carro sem terminar.

Agora estava eu com um carro desmontado, com peças espalhadas ou desaparecidas, sem dinheiro e sem ter quem concluísse o serviço…

Como diria Carlos Drummond de Andrade: E agora, José?

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Por Clenio Santos, Project Cars #403

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