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Sim, este é um VW Jetta com motor Honda K20 – ou o herege que encontra um lugar entre nós

Se nos anos 70 a rixa era entre opaleiros, dodgeiros e fordeiros, e nos anos 90, entre o power trio das versões esportivas de Gol, Escort e Kadett, não temos muita dúvida de que é entre os fãs de Honda e de VW que fica a grande rivalidade dos dias de hoje entre os nichos de entusiastas automotivos no Brasil. Talvez pela diferença fundamental de conceito de preparação – Honda e seus motores giradores, VW e seus turbinados (ainda que há canhões japoneses turbinados e AP aspirados demolidores) –, talvez por uma questão cultural. Talvez pelo simples fato de que o brasileiro precisa de um time para torcer, e isso significa um time rival para odiar.

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E então topamos com isso aí. A faixa da Honda na garagem, na foto de abertura, não é decorativa. No cofre deste Jetta de primeira geração – apesar da semelhança estilística com o Voyage (ou Fox, no mercado americano), são plataformas diferentes – repousa nada menos que um K20, motor famoso no Brasil por equipar o Honda Civic Si sedã, vendido por aqui entre 2007 e 2010.

É quase literalmente a coxinha de mortadela do Ragazzo, ficando um nível acima daquelas heresias que causam convulsões em puristas, como o Mustang RB26DETT de Tokyo Drift, os Miata com powertrain de S2000 ou os Mazda RX-7 com qualquer coisa que não seja um Wankel sob o capô. Mas nós, como amantes de todo tipo de encrenca – do placa preta de pneus diagonais, ao carro de corrida histórico aos street machines mais ousados –, não conseguimos deixar de dar um sorriso de canto com isso.

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O fato é que o Honda K20 é um dos motores aspirados de quatro cilindros mais incríveis já feitos no mundo, pois junta todas as características necessárias para quem gosta de veneno: conta com uma verdadeira indústria de peças aftermarket, não é tão caro, é relativamente leve, é extremamente robusto e apresenta capacidade para girar rotações simplesmente estratosféricas – se o Civic Si original cortava giro a incríveis 8.400 rpm e não era difícil de se chegar a 9.000 rpm sem riscos apenas com uma nova ECU para reprogramar o corte, há uma infinidade de modelos preparados que passam das dez mil rotações por minuto.

A cereja do bolo é o seu cabeçote, com capacidade de fluxo monstruosa (entre 285 e 295 cfm), o que o faz reagir muito bem à preparações turbinadas. Em nossa opinião, o K20, tal como o Chevy 350 ou o LS7, o RB26DETT e o 2JZ, pertence ao universo dos motores-bacon: vão bem em praticamente tudo.

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Embora não tenhamos detalhes exatos da cirurgia, não é difícil de se projetar os desafios básicos de um swap desta natureza. Os primeiros são questões físicas: o motor e a transmissão precisam caber no compartimento de forma que os semi-eixos fiquem alinhados e que seja possível instalar os acessórios essenciais (alternador, bomba d’água, suportes e correias, radiador) sem interferências do cofre ou dos outros componentes, ainda que para isso talvez sejam necessárias adaptações. Embora o Jetta, ao contrário do Gol desta época, use motor transversal como o Civic, nota-se que o espaço não é exatamente generoso, devido ao volume ocupado pelas torres de amortecedor e caixas de roda.

Depois, passa-se ao desafio estrutural e de fabricação: desenvolvimento de suportes e coxins, vão livre do capô, fabricação de um coletor de escape sob medida. Mais adiante, há o desafio de se fazer o motor funcionar: dimensionamento de sistema de alimentação e de arrefecimento, desenvolvimento de uma ECU compatível – e nisso, o K20 conta com uma infinidade de marcas, sendo a principal a Hondata, o que deixa tudo bem mais plug & play. E, por fim, aquele toque de bruxaria para se livrar dos imprevistos que sempre ocorrem…

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A única foto da cabine que encontramos é esta, que revela um sistema de transmissão sequencial e um freio de mão hidráulico. E aí, aos poucos, nos damos conta de que este carro não é só um híbrido de carroceria e motor: há também um cruzamento de filosofias, jogando no caldeirão eurolook e JDM um pouco de WRC – ou seja, um pouco de fator “go” ao visual “show”. Respeito!

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Tentando colher informações sobre este Jetta K20, topamos com aos menos outros três builds semelhantes: dois VW Caddy, outro Jetta (um mk3) e dois Golfs insanos – um de subida de montanha aspirado, outro de arrancada turbinado. Isso nos dá um bom indicativo de que, embora este tipo de cruzamento possa causar convulsões simultâneas nos entusiastas fervorosos dos dois extremos, alguma coisa de muito saborosa deve haver nesse mix herege…

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