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Car Culture

VW Parati “Quattro”: quando a perua do Gol virou um carro de rali

Foto: Jerry Winker/Comicozzi.com

Não há dúvidas de que o Volkswagen Gol é um dos carros mais populares do Brasil. Lançado em 1980, em poucos anos o compacto com nome que remete ao esporte favorito dos brasileiros constituiu família e deu origem a um sedã (o Voyage), a uma picape (a Saveiro) e, claro, à perua Parati. O que nem todo mundo sabe é que, entre 1987 e 1983, o Voyage e a Parati foram exportados para os EUA, onde eram vendidos como modelo de entrada e chamados de Volkswagen Fox Sedan e Wagon.

Quem é ligado na história automotiva brasileira deve saber que 1987 foi o ano do primeiro facelift de Gol e derivados, que ganharam uma nova dianteira, lanternas traseiras maiores no caso do Gol, interior bem mais sofisticado e para-choques envolventes. Foi mais ou menos com esta cara que o Voyage (com duas e quarto portas) e a Parati chegaram aos EUA — com exceção dos faróis, que eram do tipo sealed beam e recuados em relação à grade, como mandava a legislação americana na época. Em 1991 a lei já não estava mais em vigor, assim o Fox foi reestilizado exatamente como no Brasil, com faróis mais estreitos e modernos.

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O Volkswagen Fox, também conhecido como “Voyage americano”

Mas por que estamos falando tudo isso, afinal? Porque algum gênio decidiu, nos fim dos anos 90, colocar um Fox Wagon para disputar ralis. Ele equipou o carro com um motor maior e o sistema de tração integral Syncro, que era basicamente o sistema quattro da Audi com outro nome. Ou seja: na prática, estamos falando de uma Parati Quattro. How cool is that?

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Infelizmente esta é uma daquelas histórias que aconteceram antes de a Internet se popularizar e tornar-se o principal meio de comunicação e informação do planeta, com milhares de fóruns e milhões de tópicos sobre projetos (os famosos build threads) que documentam as loucuras que entusiastas do mundo todo fazem com seus carros. Assim, não há muitas informações ou imagens da cirurgia que transformou uma Parati em uma espécie de Audi Quattro americano com tempero tupiniquim.

O que sabemos, contudo, é o bastante para nos deixar com a mente cheia de ideias malignas, até porque boa parte dos Volkswagen “quadrados” preparados no Brasil costuma ter base no bom e velho quatro-cilindros EA827, O famoso AP. Swaps são mais raros, porque o pessoal prefere turbinar e aumentar o deslocamento do motor original — o que não é ruim, pelo contrário, visto que o potencial do AP é bem conhecido e há um aftermarket gigantesco para ele.

O dono desta Fox Wagon, porém, decidiu fazer algo bem diferente. Talvez por estar longe do Brasil e não conhecer nossas receitas (isto é uma suposição despretensiosa nossa, ok?) ou por estar nos EUA e ter acesso mais fácil a motores usados (o que é mais provável), ele arrancou o quatro-cilindros do cofre e colocou em seu lugar o V6 de 2,8 litros vindo de um Passat 1999.

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Trata-se de um V6 de verdade, com duas bancadas de cilindros separadas por um ângulo de 90°, e não um VR6 (que traz todos os cilindros sob o mesmo cabeçote, separados por apenas 15°). No Passat, o motor alimentado por um sistema multiponto e entregava saudáveis 193 cv, número que já faria um belo estrago em um carro bem mais leve como a Parati, ops, Fox Wagon.

Todas as informações que existem a respeito deste carro estão concentradas em um site dos primórdios da Internet moderna, que aparentemente é dedicado exclusivamente ao Fox Wagon. Através dele, sabemos que trata-se de um Fox Wagon 1988 e que seu primeiro dono foi um cara chamado Sakis Hadjiminas. Sakis competiu com ele nos anos 90 na Pro Rally, categoria criada pelo Sports Car Club of America, ou SCCA (a mesma que nos anos 60, organizou as corridas da Trans Am) que foi disputada entre 1973 e 2004, em meio a concorrentes do nível do Subaru Impreza WRX ou o Mitsubishi Lancer Evolution.

Responsa, certo? Por isso, além do V6 do Passat, Sakis realizou diversas modificações no carro para melhorar seu desempenho. Entre elas, um módulo de injeção programável, novos coletores de admissão e escape e dois turbocompressores IHI. O resultado? “Entre 300 cv e 400 cv, dependendo do evento”, de acordo com a ficha técnica. Nada mau mesmo!

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Agora, tanta potência não valeria muita coisa se não pudesse ser colocada no chão da forma correta. E, em um carro de rali, quase todo mundo concorda que a forma correta é “pelas quatro rodas” — algo que foi conseguido graças à adoção do sistema de tração integral Syncro vindo de uma Volkswagen Quantum. Obviamente, a parede corta-fogo e o túnel central tiveram que ser refeitos para acomodar o novo conjunto mecânico.

O detalhe é que Syncro era como a Volkswagen chamava sua versão do sistema Quattro da Audi — ou seja, não estamos loucos quando chamamos este carro de “Parati Quattro”!

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Além das modificações no motor e no câmbio, o carro recebeu um novo sistema de suspensão, com amortecedores “de rali” da Bilstein e braços inferiores com buchas de de alumínio fabricados sob medida. Os freios usam discos ventilados de 11 polegadas e pinças Brembo de quatro pistões, com cilindro mestre duplo da Tilton. As rodas são instaladas em cubos de cinco furos da Audi, com rodas Fuchs de 15×7 polegadas para provas no asfalto, e rodas de 15×6 polegadas na neve e no gelo.

Por dentro, além da gaiola de proteção completa e do painel aliviado, foram instalados bancos OMP de competição, cintos de cinco pontos da TRW e um sistema de comunicação Terraphone para o piloto e o navegador.

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Do lado de fora a semelhança com um Audi Quattro é notável, graças às formas quadradas que dominavam o Grupo Volkswagen na época. Os para-lamas alargados não estão ali por acaso, mas para abrigar as bitolas mais largas, e o balanço traseiro foi consideravelmente encurtado para melhorar a estabilidade nas curvas. O entre-eixos, contudo, permanece o mesmo. Toda a seção traseira foi feita de fibra de vidro, assim como os para-lamas, e os vidros laterais são de Lexan.

Para ficar mais parecido ainda com o monstro da Audi, o carro recebeu uma pintura amarela e branca, como a usada pela marca das quatro argolas em sua era de ouro no Grupo B. Em algum momento, porém, Sakis vendeu o carro a um cara chamado José M. Vicente, que repintou o carro usando prata, vermelho e preto. Nos chamem de loucos, mas para nós o carro ficou bem parecido com os Audi que competiram na Trans Am e na IMSA na década de 90.

Agora, não foi a primeira vez que um VW quadrado foi colocado para disputar ralis: nos anos 80, o Voyage foi muito bem sucedido no Campeonato Brasileiro de Regularidade (sendo o campeão de 1983) e no Sul-Americano de Rali. A preparação dos motores 1.8, segundo o relato de Bob Sharp ao BestCars, usava componentes importados e produzia até 170 cv — mas nada de treskilimei por aqui.

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