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Willys Interlagos ganha versão moderna na Itália – e mostra como é difícil criar carros no Brasil

O nome tem peso: Willys Interlagos. Foi o primeiro carro esportivo a ser produzido no Brasil, fabricado entre 1961 e 1966 pela Willys-Overland do Brasil, que mantinha estreitas relações com a Renault na França. O Interlagos era uma versão licenciada do Alpine A108 — esportivo que usava motor 1.0 de 70 cv da Renault e era uma versão mais mansa do clássico A110.

O Interlagos viveu pouco mas intensamente depois que foi adotado pela equipe de fábrica como modelo de competições. O pequeno esportivo marcou época no automobilismo brasileiro nas mãos de pilotos do calibre de Luiz Pereira Bueno ou Bird Clemente. Os que viveram essa época fazem questão de contar sobre as berlinetas fazendo as curvas de Interlagos de lado, em belíssimas derrapagens controladas. Toque de mestre.

Agora, quase 50 anos depois do fim do Willys Interlagos, ele pode estar perto de voltar a ser produzido… só que na Itália! E não estamos chamando nenhum Alpine A108 por seu nome brasileiro. Os italianos realmente decidiram usar o Willys como inspiração. Dá só uma olhada no logotipo no bico do carro. E não é só isso: o nome Willys foi usado sem cerimônias no material de divulgação, como você verá mais adiante.

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Os responsáveis pelo projeto são os especialistas em clássicos da Maggiora e Carrozzeria Vitti. Eles divulgaram as primeiras renderizações do modelo nesta semana, no Salão de Bolonha, na Itália, junto com algumas especificações do modelo, que foi batizado como AW380 Berlineta. Ele terá apenas 110 unidades produzidas e usará um motor boxer de seis cilindros turbo de 620 cv e 3,8 litros — o que nos leva a crer que o modelo será baseado no Porsche Cayman ou no 911. A carroceria será de fibra de carbono para manter o carro nos 1.350 kg e com essa relação peso / potência espera-se que ele chegue aos 100 km/h na casa dos três segundos e à máxima de 330 km/h.

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Sim. Sabemos exatamente o que você está pensando: a Itália tem uma história incrível de esportivos e berlinetas e grã-turismos e afins, por que raios os italianos decidiram produzir um esportivo brasileiro de origem francesa fabricado por americanos? Para acrescentar mais ingredientes à essa salada global?

 

Nós temos um palpite para isso. A marca Alpine, criadora do A108 e do A110 originais, atualmente pertence à Renault. Se você puxar pela memória certamente lembrará que a fabricante francesa está preparando um revival do carro para as pistas. Interlagos, embora seja um nome comum, é marca registrada da Fiat (não nos pergunte por quê). Assim, o nome Willys talvez seja uma alternativa para ligar o modelo moderno diretamente ao clássico que o inspirou sem arrumar problemas com advogados. Mas tudo isso é apenas uma suposição nossa.

Independente das razões, estamos prestes a ver um clássico nacional ressurgir na Itália, um país onde o modelo original nunca foi vendido. Diante disso é impossível não lembrar no projeto de longa data idealizado pelo designer brasileiro João Paulo Melo, que teve passagens pela Fiat e atualmente trabalha na Marcopolo.

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Em 2006, João Paulo criou uma releitura para o clássico brasileiro como projeto de graduação na faculdade, em parceria com o colega Felipe Guimarães Coelho. A dupla de designers seguiu a ideia original de Jean Rédélé, o criador do Renault Alpine, de oferecer ao público um esportivo acessível. Por isso, o modelo foi idealizado para receber conjunto mecânico Renault fabricado no Brasil. A ideia original era usar um motor transversal de dois litros e 142 cv em posição central traseira.

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Com a repercussão gerada pela possibilidade de termos um esportivo como o Interlagos de volta, os designers decidiram elaborar um levantamento de viabilidade técnica para produção de um carro como este. O estudo resultou em um novo conceito em 2008 (acima) e em tentativas significativas de transformá-lo em realidade, mas o projeto acabou não saindo do papel devido à crise mundial daquele ano e também ao desentendimento entre investidores.

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Diante das dificuldades de produzir um carro no Brasil, João Paulo — agora levando o projeto por conta própria — decidiu que seria mais fácil tirar o carro do papel se ele fosse lançado como um carro de corridas, algo semelhante ao que os responsáveis pela volta da Puma estão tentando fazer. Você pode ver mais detalhes do projeto no site oficial do designer.

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Com componentes nacionais, motores de baixa cilindrada e fáceis de reparar o novo projeto teve seu briefing reformulado para se desvincular tanto do projeto de 2006, quanto ao carro original da Willys. A ideia de João agora, é buscar patrocínio para criar uma categoria monomarca disputada por esse protótipo inspirado no Interlagos original. Essa nova fase do projeto já atraiu o interesse de possíveis investidores, mas até agora o designer  — que falou com o FlatOut nesta sexta-feira – ainda não sabe quando todas as promessas se tornarão realidade.

Enquanto isso, o Willys AW380 Berlineta italiano já teve sua primeira unidade vendida a um milionário russo por cerca de R$ 1 milhão – o que mostra que a ideia que João Paulo e seu colega tiveram em 2006 é boa de verdade. Não achamos de forma alguma que os italianos se inspiraram no trabalho de João, mas a situação é emblemática e mostra como a falta de incentivos, excesso de burocracia, custos elevados e uma economia instável inviabilizam as boas ideias dos talentos brasileiros.

 

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