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Achados meio perdidos Car Culture

XKSS: quando a Jaguar botou placas de rua em um bólido vencedor de Le Mans

Lançado em 1961 e aclamado como o carro mais belo já feito por ninguém menos que Enzo Ferrari, o Jaguar E-Type é considerado por muitos a obra prima da companhia britânica. Sua bela carroceria de aço (de alumínio na raríssima versão lightweight), leve e aerodinâmica; o motor de seis cilindros em linha com herança das pistas e ronco soberbo mais a dinâmica excelente que era conferida pela suspensão independente nas quatro rodas eram bons ingredientes para o sucesso, e o preço era razoavelmente acessível para um grand tourer de nível tão refinado.

Não foi por acaso, então, que o E-Type se tornou um grande sucesso e vendeu bem mesmo com o sistema elétrico problemático (mal comum entre os carros britânicos daquela época). Em 1971, o seis-em-linha foi substituído por um V12, mas este era mais pesado e não muito mais potente, e por isso (e também pela silhueta mais inchada do V12) os modelos com seis cilindros são os mais cobiçados. Quatro anos depois, em 1975, o E-Type saiu de linha – com 72.515 unidades construídas em 14 anos.

Ele foi tão usado e abusado por motoristas casuais, pilotos amadores e caras que viviam do automobilismo que os exemplares originais ficaram bastante raros, pois muitos tiveram uma vida curta e intensa, sendo guiados como se deve. Por isto, hoje em dia um E-Type original e pouco rodado é item de colecionador, e um exemplar em mint condition pode chegar facilmente aos US$ 300.000 – cerca de R$ 900 mil em conversão direta.

No fim das contas, porém, o E-Type foi a evolução final de uma receita que começou nas pistas, cuidadosamente esculpida pelos engenheiros da Jaguar para ser um carro confortável para viajar nas rodovias e apto a encarar algumas curvas em uma estradinha rural quando o dono estivesse a fim. Ele tinha chassi tubular e como os Lotus-Cosworth, usava o motor como componente estrutural, tinha freios traseiros inboard e, quando preparado para competições, se saía muito bem, não por acaso.

JaguarHeritage

Podemos dizer que a origem do E-Type está no D-Type, o protótipo da Jaguar que venceu as 24 Horas de Le Mans de 1955, 1956 e 1957. Ele pode ser considerado um dos carros de corrida mais inovadores de seu tempo, e um marco na história do automobilismo como um todo, e não apenas para a Jaguar: ele foi o primeiro a adotar construção do tipo monocoque, na qual a carroceria é rígida o bastante para ser a estrutura principal do carro, em vez do tradicional layout de carroceria sobre chassi tubular – esquema usado por seu antecessor, o Jaguar C-Type. Na dianteira havia um subchassi, que acomodava a suspensão, e apenas isto.

Com isto, a carroceria ficava muito mais compacta e leve, o que era uma vantagem enorme em relação aos rivais. Além disso, o formato arredondado e baixo da carroceria, mais a barbatana sobre o deck traseiro, eram elementos aerodinâmicos vindos diretamente da aviação, pois o designer Malcolm Sayer havia trabalhado para a Bristol Aeroplane Company durante a Segunda Guerra Mundial.

Partes do C-Type, como o seis-cilindros de 3,4 litros e a suspensão, foram aproveitados no D-Type, bem como os freios a disco nas quatro rodas. O resultado era um carro de 250 cv que pesava 864 kg e era mais rápido que as Ferrari na famosa reta Hunaudières, de Le Mans.

Um detalhe importante, agora: ainda que o D-Type tenha vencido as 24 Horas de Le Mans três vezes, apenas em uma delas (a primeira) o mérito foi da equipe de fábrica. Nas outras duas, foi a equipe indepentende Ecurie Ecosse, que foi uma das várias equipes que também colocaram o D-Type na pista. A fabricante deixou as pistas no fim de 1956, fornecendo apenas suporte técnico aos clientes que haviam comprado seus carros de corrida.

No total, cerca de 18 carros foram feitos para a equipe de fábrica, e mais 53 foram vendidos a outros times. E outros 16… foram transformados no Jaguar XKSS!

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O XKSS era um carro de rua, como o E-Type que veio alguns anos depois. Mas, diferentemente dele, o XKSS não era um esportivo que usava soluções dos carros de corrida. Ele era, basicamente, um carro de corrida emplacado e, por isto, era muito mais selvagem por natureza. O motor sequer foi amansado, entregando os mesmos 250 cv. Era o suficiente para chegar aos 100 km/h em 5,2 segundos, com máxima de 240 km/h.

Foi muito mais uma questão de necessidade do que um rompante entusiasta: a Jaguar não tinha mais seu programa automobilismo e precisava recuperar ao menos uma parte do investimento feito no D-Type. Por isto, em 1957, pegou alguns D-Type inacabados e terminou de construí-los. Mas, desta vez, para as ruas.

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Para economizar dinheiro, a Jaguar decidiu que faria o mínimo necessário para que o XKSS fosse homologado para as ruas. As modificações na carroceria, então, resumiram-se à remoção da barbatana e da divisão entre os bancos no cockpit, a instalação de para-choques e alguns frisos cromados, retrovisores e lanternas traseiras. Também foi adicionada uma porta do lado do passageiro, um para-brisa de verdade, e um teto de tecido dobrável bastante rudimentar. Um detalhe importante: ainda que o mercado-alvo para o XKSS fosse o norte-americano, nenhum dos carros foi convertido para ter o volante do lado esquerdo. Quem quisesse mesmo um exemplar teria que aprender a dirigir à mão inglesa.

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Nada disto impediu que a Jaguar conseguisse vender os dezesseis carros que teve tempo de concluir. E o XKSS foi muito elogiado por seu desempenho, que incluía números impressionantes para a época. Não foi à toa que Steve McQueen, o lendário ator de “As 24 Horas de Le Mans” e “Bullitt”, comprou o seu em 1958.

O plano era construir 25 unidades do XKSS, mas não foi possível porque a fábrica onde os carros eram feitos no Reino Unido pegou fogo. O incêndio aconteceu no dia 12 de fevereiro de 1957, há quase exatos 60 anos, e os nove carros restantes foram reduzidos a cinzas.

Em novembro de 2016, a Jaguar anunciou que iria construir os nove carros faltantes, continuando a série de 25 carros, usando os moldes originais para construir as carrocerias à mão e seguindo a ordem dos números de chassi. E todos os nove já foram vendidos antes mesmo do anúncio.

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É muito difícil que um dos 16 carros feitos em 1957 apareça à venda – a última vez em que isto aconteceu publicamente foi lá em 2005, em durante um evento em Pebble Beach, na Califórnia, quando foi leiloado pela Gooding & Company. Foram precisos doze anos para que isso acontecesse de novo, e esta é a razão desta reportagem.

O carro destas fotos (que não é preto, e sim pintado de um verde bem escuro) está sendo oferecido pela Gooding & Company, que o venderá em um leilão da companhia em Amelia Island, Flórida, no mês que vem. Foi usado em corridas no Canadá até 1961, e em algum momento de sua história foi completamente restaurado.

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O valor estimado pela agência dá uma ideia de quanto o XKSS valorizou desde a última vez que um exemplar apareceu no mercado. Enquanto o carro leiloado em 2005 foi arrematado pelo equivalente a cerca de US$ 2,5 milhões (R$ 7,7 milhões em conversão direta), espera-se que este seja vendido por algo entre US$ 16 milhões e US$ 18 milhões (R$ 50-55 milhões). Será que dá para juntar esta grana até o mês que vem?

Se você quiser dar uma viajada na sensação de acelerar o XKSS, assista o vídeo abaixo em tela cheia com o som no talo. Você não vai se arrepender.

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