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Car Culture

A história e os carros exclusivíssimos da coleção do Sultão do Brunei

Se você é entusiasta já deve ter ouvido falar da coleção de carros do Sultão do Brunei – e provavelmente não vai muito com a cara dele. A razão pela qual os fãs de carros nutrem grande antipatia pelo Sultão Hassanal Bolkiah tem a ver justamente com seus carros. Fala-se em mais de 5.000 exemplares do que de melhor foi feito na indústria automotiva, mais um punhado de automóveis feitos exclusivamente para ele, todos guardados em seu palácio a alguns quilômetros da capital Bandar Seri Begawan.

Há algumas verdades, algumas mentiras e muitas dúvidas nesta história. Vamos falar delas, e também dos carros, claro.

A realidade é que boa parte da coleção não pertencia ao Sultão do Brunei, e sim a seu irmão, o príncipe Jefri, e a outros familiares. Como bem observa Michael Sheehan, do site Ferraris Online, que visitou a coleção e relatou tudo ao Gizmodo, ninguém além da família do Sultão sabe exatamente quais carros pertenciam a quais membros da família, pois jamais foram feitos registros oficiais.

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O que se sabe, porém, é que a coleção beirava algo entre 2.500 e 5.000 automóveis, todos espalhados pela propriedade do Sultão, armazenados em galpões de vários andares com mais de 1.000 m². Nós sempre criticamos colecionadores que deixam seus carros em garagens climatizadas, protegidos dos elementos e das emoções de acelerar mas, no caso da coleção de Brunei, as coisas são ainda piores: não há infra-estrutura, não há manutenção, e os carros acabam sofrendo com buracos no telhado, infiltrações e outras mazelas. Umidade, sol e poeira tornam a vida de qualquer carro parado ainda mais difícil. Os carros estão apodrecendo há pelo menos duas décadas.

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O Bentley que levou o recém-casado Sultão e sua quarta esposa no dia da união

Claro, o Sultão do Brunei é um dos caras mais ricos do planeta e é dono de vários carros que lá estão. Mas ele não é o maior culpado de todo este descaso: no fim da década de 1990 – mais precisamente, em 1997 – uma crise financeira assolou a Ásia e a empresa de investimentos de Jefri faliu com uma dívida de mais de US$ 10 bilhões. Mais tarde, as autoridades do Brunei descobriram que Jefri havia embolsado mais de US$ 14 bilhões.

O dinheiro foi gasto com carros, viagens, sexo e um famoso iate que recebeu o nome de Tits (“peitos”) e botes salva-vidas chamados Nipple I Nipple II (“mamilos 1 e 2”).

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Jefri foi processado pelo governo do Brunei e perdeu o cargo que tinha – ele era o ministro das finanças, e controlava os lucros da venda de petróleo e gás natural.

Para negociar a dívida e encerrar o processo, Jefri viu-se forçado a devolver diversos bens para o governo do Brunei, incluindo mais de 1.000 carros, nove aviões, 100 quadros e 500 propriedades dentro e fora do país.

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E o Sultão? Bem, ele continua sendo o primeiro ministro, ministro da defesa, ministro de finanças e chefe das forças armadas do Brunei e continua colecionando carros, tendo ficado com os automóveis do irmão. O problema é que ele jamais se interessou em cuidar deles como se deve e, pelo fato de boa parte deles ter sofrido muito com a negligência ao longo dos anos, vender a coleção não daria tanto lucro quanto poderia se os carros estivessem em perfeito estado. De tempos em tempos, alguns são até anunciados, mas dificilmente os negócios são fechados – normalmente porque daria menos trabalho encontrar outro exemplar em melhor estado do que restaurar uma Ferrari ou Bentley maltratados pelo período em que ficaram parados.

Alguns estão cobertos de poeira, por fora e por dentro. Outros estão com a mecânica “travada”, depois de tanto tempo parados. Todos, absolutamente todos, precisam de cuidados melhores do que recebem.

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Mas afinal, de que carros estamos falando? De muita coisa, meu amigo (este link traz uma suposta lista com a maioria dos nomes). Muitos sonhos de consumo de qualquer petrolhead, como o McLaren F1 e a Ferrari F40, mas também muitos carros exclusivos, encomendados com as próprias fabricantes em segredo – algo que só um dos indivíduos mais ricos do planeta, com uma fortuna superior a US$ 20 bilhões (por volta de R$ 65 bilhões em conversão direta) poderia conseguir.

Vamos dar uma olhada neles agora, tendo em mente que estas são informações que circulam por aí há alguns anos e podem não ser 100% precisas.

 

Aston Martin V8 Virage

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Aquele que um dia foi o Aston Martin mais potente do planeta era vendido apenas como cupê, mas o Sultão encomendou versões sedã e perua especialmente para sua coleção.

 

Aston Martin V8 Vantage Special Series 1

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Além de comprar carros exclusivos sob encomenda, o Sultão também conseguiu colocar as mãos em alguns carros conceito – como o Aston V8 Vantage Series 1, feito em 1997 para lembrar o clássico DB4 GT Zagato.

 

Aston Martin Special Series 2

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Também baseado no V8 Vantage, o Special Series 2 tinha uma proposta mais moderna e agressiva, e também era um carro exclusivíssimo.

 

Bentley Dominator

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Muito antes do Bentayga, em 1994, a Bentley recebeu a encomenda de um utilitário pela família real do Brunei. Seis exemplares ficaram prontos em 1995, custando £ 3 milhões cada. Não se sabe muito a respeito deles, apenas que utilizam o mesmo sistema de tração integral dos Range Rover da época. Considerando a área envidraçada, é provável que sejam Range Rovers com carroceria e interior modificados.

 

Bentley Java

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Este conceito, apresentado no Salão de Genebra de 1994, é feito sobre um BMW Série 5 da época e seu objetivo era mostrar como ficaria um conversível da Bentley usando a plataforma. O Sultão gostou tanto do carro que encomendou dezoito exemplares à fabricante britânica, entre eles uma perua.

 

Bentley Val d’Isere

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Feito em 1989, o Val d’Isere é da época em que a Bentley e a Rolls-Royce eram uma companhia só, ele usava como base os modelos de entre-eixos curto de qualquer uma das marcas. No caso do carro do Sultão, trata-se de um Bentley Turbo R, movido por um V8 de 6,7 litros com turbo (é mesmo?) e 300 cv – estimados pela Road & Track na época, visto que a fabricante jamais ofereceu dados oficiais de potência e desempenho. Coisa de marca de luxo.

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A conversão era projetada e realizada pela carrozzeria Jankel, que também oferecia como opcional um sistema de tração integral desenvolvido por eles mesmos. Enquanto as rodas traseiras continuavam sendo movidas pelo motor, as rodas dianteiras eram movidas por um sistema hidráulico que consistia em “motores” embutidos nos cubos das rodas, conectados à transmissão por correias dentadas.

Foram feitos apenas 11 exemplares, e ao menos dois deles pertencem à família do Sultão.

 

Bentley Rapier

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O Rapier foi feito para o príncipe Jefri em 1996, pouco antes de ele ter os bens congelados pelo governo do Brunei (na prática, por seu irmão). Para se ter uma ideia da exclusividade, o carro não foi feito sobre um Bentley que já existia, e sim sobre um chassi desenvolvido do zero, chamado VH. Seis carros foram feitos, e suas linhas são bem diferentes do que a Bentley fazia na época.

 

Cizeta Moroder V16T

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O Cizeta Moroder V16T nasceu quando a Lamborghini rejeitou o projeto original do designer Marcello Gandini para o Diablo. Gandini procurou a Cizeta, fabricante independente de superesportivos, e vendeu a eles o projeto, que foi concluído com um motor V16 de 560 cv montado em posição transversal (!) e quatro faróis escamoteáveis. Apenas 11 carros foram feitos, e o Sultão tem três deles em sua coleção.

 

Dauer 962 LM

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Em 1993, quando o Porsche 962 se aposentou das pistas (depois de dominar as 24 Horas de Le Mans por boa parte da década de 1980), a fabricante alemã cedeu os monoblocos dos carros a empresas dispostas a transformar o 962 em um superesportivo de rua. Uma destas empresas foi a Dauer, cuja criação ficou tão interessante que a própria Porsche os procurou imediatamente para colocá-lo de volta para competir. Treze carros foram feitos, e cinco deles já passaram pela garagem do Sultão.

 

Ferrari 456 Venice

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Esta foi uma encomenda de Jefri, que pediu seis exemplares de uma versão perua de quatro portas da Ferrari 456, batizada 456 Venice. Seis, reza a lenda, porque este era o número mínimo de carros que a Pininfarina aceitava nas encomendas de projetos exclusivos.

 

Ferrari F40

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Ok, a F40 é incrível, mas não é um carro tão exclusivo assim considerando sua fama. Exceto se você for o Sultão do Brunei e encomendar um exemplar com bancos de couro, ar-condicionado e um esquema de cores que lembra muito o Peugeot 205 T16 de rua…

 

Ferrari FX

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Esta ficou famosa por ser a primeira Ferrari equipada com câmbio semi-automático. Encomendada em 1994 pelo sobrinho do Sultão (três anos antes da F355, oficialmente a primeira com borboletas atrás do volante), a FX foi feita com base na Ferrari Testarossa, mas tem visual completamente diferente, mais arredondado e agressivo.

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Seis exemplares foram encomendados. Um deles foi equipado com uma caixa sequencial usada pela Williams na Fórmula 1, enquanto nos outros cinco o câmbio é derivado de um projeto da Prodrive para o Subaru WRX de rali.

 

Ferrari F90

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Outra Ferrari baseada na Testarossa, a F90 abusa do visual futurista e teve seis exemplares encomendados pelo Sultão em 1988. A encomenda foi feita direto com a Pininfarina e, na época, nem a própria Ferrari sabia do projeto – e só admitiu sua existência em 2005.

 

Ferrari F50 Bolide

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Talvez o Sultão não curtisse muito o visual da Ferrari F50, e por isso encomendou a F50 Bolide, que altera completamente as linhas da carroceria mas mantém o motor V12 de 4,7 litros e 520 cv original de fábrica.

 

Pininfarina Argento Vivo

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Em 1995, a Honda contratou o estúdio Pininfarina para projetar o conceito Argento Vivo, um grand tourer com pintura em dois tons que foi apresentado em 1995. O Sutão do Brunei conseguiu usar sua influência para convencer a Pininfarina a construir outros cinco exemplares, que foram feitos sobre o Mercedes-Benz SL600 e  equipados com o motor V12 de 7,3 litros da AMG – o mesmo do Pagani Zonda.

 

Mercedes-Benz S70 AMG

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Feito em 1997, o S70 AMG era uma versão não-oficial do Mercedes-Benz Classe S W140, feita apenas sob encomenda. Consistia em pegar um S600, que originalmente vinha equipado com um V12 M120 de seis litros e aumentar o deslocamento para sete litros, produzindo nada menos que 500 cv (imagine um sedã de 500 cv há mais de 20 anos!).

Algo entre 15 e 18 exemplares foram feitos, mas só o Sultão conseguiu os seus com carroceria de perua.

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E mais: a perua tem a dianteira mais moderna, usada no cupê da Classe S W140, comumente chamado de C140.

 

Jaguar XJ220 by Pininfarina

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O Sultão não se incomodou com o fato de o Jaguar XJ220 ter um motor V6 biturbo em vez de um V12 naturalmente aspirado. Ele só achava que seu visual era comum demais, e por isto encomendou este carro, que tem visual completamente diferente e estilizado pela Pininfarina.

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