A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
História

A história e os recordes de Junichi Tanaka, fundador da Jun Auto Mechanic

Existem preparadoras renomadas e emblemáticas nos quatro cantos do mundo, mas por alguma razão há toda uma aura mítica em torno das preparadoras japonesas. Talvez pela barreira do idioma e pela distância, nós, ocidentais, enxergamos a cena tuning japonesa como algo obscuro e fascinante – sabemos que elas existem e conhecemos muitos de seus projetos, mas sua história chega até nós através de histórias que às vezes soam folclóricas, mesmo que tenham acontecido de verdade. Como a prisão de Smokey Nagata, fundador da preparadora Top Secret, por atingir os 317 km/h em uma rodovia do Reino Unido com seu Supra V12 de 1.000 cv em 1999.

Ainda não é assinante do FlatOut? Considere fazê-lo: além de nos ajudar a manter o site e o nosso canal funcionando, você terá acesso a uma série de matérias exclusivas para assinantes – como conteúdos técnicoshistórias de carros e pilotosavaliações e muito mais!

 

FLATOUTER

Membro especial, com todos os benefícios: acesso livre a todo o conteúdo do FlatOut, participação no grupo secreto no Facebook (fique próximo de nossa equipe!), descontos em nossa loja, oficinas e lojas parceiras!

A partir de

R$20,00 / mês

ASSINANTE

Plano feito na medida para quem quer acessar livremente todo o conteúdo do FlatOut, incluindo vídeos exclusivos para assinantes e FlatOuters.*

De R$14,90

por R$9,90 / mês

*Não há convite para participar do grupo secreto do FlatOut nem há descontos em nossa loja ou em parceiros.

Outro personagem lendário do tuning japonês era Junichi Tanaka, fundador da Jun Auto Mechanic, que já quebrou diversos recordes de velocidade e também se tornou uma das preparadoras mais famosas do Japão. Tanaka morreu no último dia 5 de março, aos 76 anos de idade em decorrência de um câncer. Dois dias antes, em 3 de março, a Jun Auto Mechanic havia completado 39 anos de fundação.

Junichi Tanaka nasceu em 1943 – três anos antes da fundação da Tanaka Industiral Company, a empresa da família. No começo a fábrica produzia componentes e equipamentos para a fabricação de doces. Em 1955, porém, teve início a produção de motores dois-tempos para motocicletas, um segmento que estava em pleno crescimento no Japão, liderado pela Honda e disputado por outras companhias, como a Yamaha. Portanto, enquanto crescia, Junichi obviamente desenvolveu o gosto por mecânica – especialmente depois de 1965, quando a Tanaka Industrial Co. começou a fabricar componentes mecânicos e painéis de carroceria para automóveis. Na época, Junichi tinha 22 anos de idade.

Foi de Junichi Tanaka a decisão de criar, em 1980, a divisão Jun Machine Shop. Ele já era um mecânico experiente e, desde o início, a ideia era produzir componentes de preparação para projetos de rua e de pista. O primeiro produto da Jun levou dois anos para ficar pronto: um kit stroker para o motor Nissan L-series, usado no Fairlady Z S30 (vendido no ocidente como Datsun 240Z), que elevava o deslocamento do seis-em-linha de 2,8 litros para 3,5 litros – e, aliado a um kit turbo que a Jun lançou dois anos depois, ajudava o motor a entregar até 500 cv.

Uma particularidade da Jun era o gosto de Junichi pelas disputas em linha reta, que foram o que colocou a preparadora nos holofotes. Isto ficou claro logo no primeiro projeto de demonstração da Jun: um Nissan S30 de arrancada, que de acordo com relatos da época era capaz de ir de zero a 400 metros (quase um quarto-de-milha) em 13,53 segundos – uma bela marca em 1985.

Também foi naquele ano que Jun abriu outra divisão da Tanaka Corporation: a Jun Auto Work, que concentrava-se na fabricação de peças de carroceria e body kits, além de fazer serviços de pintura e funilaria, usando até mesmo fibra de carbono em alguns projetos. Foi ali que Junichi começou a diversificar sua atuação – e a refinar seus projetos. Em 1990, com um Nissan 300ZX Z32 modificado, ele viajou para os EUA para participar da Speed Week, em Bonneville – a disputa por recordes de velocidade nas planícies de sal de Utah. O carro foi capaz de atingir 373 km/h, o que não era exatamente um recorde, mas já foi o bastante para impressionar o público do Japão, onde não havia a tradição de se perseguir recordes de velocidade em linha reta.

Determinado a conseguir ir ainda mais rápido no ano seguinte, Junichi criou em 1991 a Jun Auto Mechanic, unindo as duas divisões que havia criado anteriormente sob uma única empresa. E, no mesmo ano, retornou a Bonneville com um novo Z32 – desta vez, preparado com a ajuda de outra companhia japonesa, a Blitz.

O motor V6 do 300ZX, originalmente com três litros, dois turbos e 280 cv, recebeu um kit stroker para chegar aos 3,1 litros, um novo coletor de admissão e novos turbocompressores – o bastante para entregar nada menos que 994 cv, e chegar aos 419,84 km/h.

Foi o primeiro recorde de velocidade quebrado pela Jun em Bonneville, na categoria E/BMS (para carros com motor sobrealimentado de 3,01 a 4,26 litros). Em relação à aerodinâmica, o carro tinha uma nova dianteira, com um bico mais baixo e faróis nos para-choques, além de um calombo no capô para acomodar o sistema de admissão.

Este carro foi o que colocou a Jun no mapa fora do Japão, e é considerado um dos recordistas de velocidade mais emblemáticos de Bonneville. Vale mencionar que, depois do recorde, o Z32 foi vendido para um cliente e convertido de volta para uso nas ruas – com uma nova pintura e rodas BBS com pneus de rua. Ele foi leiloado no fim de 2017 pela BH Auction, que tem tradição em colocar alguns dos carros mais emblemáticos do planeta, tanto nas pistas quanto longe delas, à venda.

A publicidade obtida com os recordes de velocidade levou a Jun a abrir ainda mais seu leque de modificações. Foi em meados da década de 1990 que Junichi Tanaka começou a investir em projetos para competir em outras categorias, como provas de time attack, corridas de turismo, drift, arrancadas, e até mesmo ralis.

Foi nesta época que começaram a ser montados diferentes projetos – ou demo cars, como a Jun costuma chamá-los – com base em uma bela seleção de modelos: Honda Civic EK, Mazda RX-7, Honda Prelude, Toyota Supra, Mitsubishi Lancer Evolution, Subaru Impreza e Nissan Silvia S15. Quase sempre os carros usavam pintura amarela, com as marcas dos patrocinadores em azul ou verde.

Dentre estes, alguns se destacam. Os Honda Civic disputaram corridas em circuitos e provas de arrancada nos Estados Unidos, enquanto o Toyota Supra, apelidado Jun Akira Supra, foi usado para quebrar recordes em Bonneville.

Ele tinha um motor 2JZ com deslocamento ampliado para 3,2 litros, dois turbocompressores Trust T78 e nada menos que 1.200 cv, acoplado a uma caixa sequencial de seis marchas. Foi o suficiente para atingir 401,2 km/h em 2001, recorde na categoria E/BGCC, para cupês com motor a gasolina, sobrealimentados, com deslocamento entre 3,01 e 4,26 litros.

Enquanto isto, dentro de casa, a Jun conquistava o público do tuning com seus componentes aftermarket, desenvolvidos com a experiência adquirida nas competições – turbocompressores, coletores de admissão e escape, pistões, bielas, virabrequins, e também peças de suspensão e freios. Aparições em quadros da Best Motoring e da Hot Version, sendo comparados com projetos de outras preparadoras e também esportivos mais caros e raros, também ajudaram a popularizar a Jun Auto Mechanic entre os entusiastas.

Nos últimos anos a Jun acompanhou a evolução dos esportivos e dos componentes aftermarket, criando kits de preparação – e demo cars, claro – com base em modelos como o Nissan GT-R e o Subaru BRZ. O GT-R pode receber um kit stroker para quatro litros no motor VR38DETT, com potencial para passar dos 1.200 cv.

Já o BRZ pode receber, além de um boxer de quatro cilindros com deslocamento ampliado para 2,5 litros, um V8 Synergy, feito a partir de dois V4 de 1.200 cm³ da Kawasaki Ninja enfileirados, unidos pelo virabrequim.  O V8 é capaz de entregar 367 cv a 10.680 rpm e 27,3 mkgf de torque a 7.970 rpm, com corte de giro a estratosféricas 11.600 rpm.

Matérias relacionadas

Purvis Eureka: o “Puma australiano” que não tinha portas

Dalmo Hernandes

A história do Citroën XM, o último carro “maluco” da fabricante francesa

Dalmo Hernandes

Peugeot e Pininfarina: a história (e os belíssimos carros) da parceria entre franceses e italianos

Dalmo Hernandes