Edição diária: 17/06/2019
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Project Cars Project Cars #30

Amor platônico: a história do Dodge Dart de Elíphas Neto

Muitas vezes reclamamos que nossos projetos de vida estão caminhando lentamente ou sequer saíram do papel. Eu sou um desses caras. Porém, com a oportunidade de escrever para o Project Cars, fui obrigado a relembrar fatos, procurar fotos, notas de gastos, serviços feitos… e então percebi o quanto o projeto evoluiu desde que foi iniciado.

Meu nome é Elíphas Neto, paranaense do interior, advogado. Nascido na metade da década de 80, tive o privilégio de andar em vários clássicos nacionais quando ainda eram relativamente comuns nas ruas. O episódio que despertou meu fascínio por carros ocorreu quando eu tinha uns 7 anos, ou seja, em meados de 1992, com meu pai dirigindo um Opala 250-S.

Manhã de inverno congelante que só quem é do Sul conhece, cidade deserta, nenhum barulho nas ruas, exceto o do motor 6 cilindros com escape direto. De forma inesperada, meu velho fez uma curva, engatou segunda e pisou. Lembro do torque pressionando meu corpo contra o banco, meu pai sorrindo e, ao mesmo, tempo brigando com o volante pra manter o carro em linha reta e aquele ronco ecoando no quarteirão.


O ronco do Opala (neste vídeo, um SS6 1974) sem abafadores

Aquele dia definiu a minha preferência por carros com motor de grande cilindrada e tração traseira. Porém, no decorrer dos anos o sonho de ter um automóvel com essas características se tornou cada vez mais distante. Nossa geração acompanhou, pouco a pouco, os clássicos nacionais sumindo das ruas, sendo trocados por quinquilharias, ou até mesmo apodrecendo em algum campo. Inclusive, fiquei um bom tempo sem falar com meu pai quando ele vendeu a Chevrolet C10 por R$ 1.800 – e o cara sequer pagou!!

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O meu Dart, até o início de 2010, era um desses veículos abandonados. Mas minha ligação com ele começou há muito tempo atrás. Eu tinha uns 13 anos e comecei a trabalhar para o meu avô, comerciante de peças automotivas e guincheiro. Minha função era fazer cobranças pela cidade com a minha Caloi Cross.

Numa dessas andanças me deparei com uma garagem em que aparecia metade de um carro amarelo, imundo, com lonas, tábuas e peças de caminhão jogadas por cima dele. Era um Dodge Dart Luxo 1975.
Fiquei por algum tempo “namorando” o Dodge e corri perguntar ao meu avô se ele conhecia o dono. Ele se limitou em dizer que o cara não era muito amistoso e que não gostava de ninguém perguntando sobre o carro.
A partir daquele dia, por muitos anos passei religiosamente pelo local, só para olhar o carro. No entanto, ao completar 18 anos, fui morar em outra cidade para cursar Direito.

Aos poucos, outras prioridades começaram a surgir na vida. Nos finais de semana em que ia para minha terrinha visitar a família, raramente passava em frente àquela garagem, pois sempre rolava aquele receio de que o carro não estaria mais ali.

Após me formar, voltei a morar com minha mãe. No entanto, tinha um namoro de quase seis anos nas costas e a pressão para que ocorresse um casamento era cada vez maior. Não faltavam cobranças para economia de dinheiro, compra de enxoval, noivado, estabilidade financeira e etc. Porém, como todo gearhead, eu só pensava numa coisa: ter meu primeiro carro. E tinha que ser seis cilindros ou V8. Mas nenhum negócio dava certo, sempre por falta de grana ou por falta de incentivo.

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Para quem não conhece, o ator Sam Elliott, em cena de “O Grande Lebowski” (2005)

Então, fiquei sabendo que o Dodge que eu tanto queria estava à venda e fui conferir se era verdade. A imagem de que o dono era um “cara de poucos amigos” desapareceu quando um senhor com um bigode estilo Sam Elliott abriu um sorriso simpático e me convidou para ver a barca. Era o Sr. José, dono do carro e que, posteriormente, se tornou um grande amigo meu e da minha família. Fazia tanto tempo que eu não chegava perto de um Dodge, que nem lembrava mais o quanto ele era enorme. Olhar aquele carro esquecido no tempo, esperando ser resgatado, trazia um misto de alegria e tristeza.

Passada a empolgação, comecei a analisar o veículo de forma racional. Boa parte do que eu achava ser ferrugem, era apenas sujeira. Mesmo assim, o Dodge estava bastante judiado. Capô dianteiro, assoalho e caixas de ar com vários podres, lanterna traseira quebrada e vidros riscados. O carro estava calçado com quatro rodas Magnum, mas uma estava podre até o miolo. Nada surpreendente para um carro que foi mictório de cachorros, ninho de ratos e porta entulhos por mais de uma década.

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Com mais calma e com a ajuda do meu tio que me acompanhou, notei que a estrutura do carro estava intacta, tinha todos os frisos e emblemas, o interior e a mecânica estavam aparentemente inteiros e a documentação rigorosamente em dia.

Indaguei ao dono o motivo pelo qual foi tirado o câmbio na coluna de direção e então surgiu uma informação interessante: na década de 1980, um Oficial Militar se acidentou em um Charger R/T com 20 mil km rodados e resolveu vender o que sobrou do carro. Estava explicado o porquê dos bancos individuais, o câmbio de 4 marchas no assoalho, as rodas Magnum, Diferencial Dana (lembrando que a maioria dos Dodges saíram com diferencial Braseixos – o pesadelo de Dodgeiros e Opaleiros – e apenas alguns Chargers e Dodges automáticos saíam com o Dana 44, de relação 3,15:1 ou 3,07:1) e motor na cor dourada.

O dono do carro foi objetivo: estava vendendo-o por que precisava de dinheiro e, caso estabilizasse sua situação financeira, cancelaria a venda. O Sr. José estava atento ao “boom” dos preços de carros antigos e pediu R$ 16 mil pelo veículo – isso em 2010. Voltei embora sem esperanças de comprá-lo, pois esperava por um valor na faixa de R$ 10 mil. Para piorar, eu ganhava uma merreca e não tinha muito dinheiro em poupança.

Ninguém sabia da negociação, exceto a minha mãe e meu tio, que acompanharam esta saga desde o início. Então, minha mãe resolveu ajudar financeiramente, pois, sabia que se não fosse aquele, dificilmente conseguiria outro. Aí fica uma dica supersticiosa: só comente com outras pessoas sobre coisas deste tipo após fechar negócio. Isso evita olhares e comentários negativos. Numa segunda-feira chuvosa, chamei o meu tio, pegamos o guincho, minhas economias embrulhadas num pacote e um cheque de R$ 9 mil. Parei na frente da casa do Sr. José e lhe disse: “é só o que eu tenho. Fechamos negócio? Se não, pelo menos ganhei um amigo.”

Ele contou o dinheiro, olhou o carro por uns minutos e foi dentro da casa buscar o documento de transferência, sem falar uma palavra. Nessa hora eu já estava tirando os entulhos de cima do carro e com o sorriso na orelha, meu tio manobrando o guincho. Era meu!

Pois bem. De 2010 até agora, muita coisa aconteceu. Ouvi aquela mítica frase “ou o Dodge ou eu” e, como vocês podem imaginar, o carro vai bem, obrigado.

Como se espera de um V8 dos anos 70, não foi difícil despertá-lo, mesmo após 12 anos parado. A emoção de abrir a garagem e dar a partida em um motor de 5,2 litros sem abafadores e saber que ele é seu, é como acordar na manhã de natal de 1993 e ver um Super Nintendo embaixo do pinheirinho. E tem mais: ao desemperrar a tampa do porta malas encontrei uma roda Magnum novinha e um par de lanternas traseiras originais da Chrysler na caixa, do modelo 1971!

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Toda essa empolgação, somada à falta de experiência dirigindo um carro com 41 mkgf de torque, é um passaporte para o mundo do Capiroto. No entanto, depois de umas puxadas, de enguiçar em cruzamentos movimentados (maldito platinado e carburador DFV!), de ser perseguido pela polícia algumas vezes, comecei a entender as limitações e os perigos de dirigir um carro antigo.

Pra fechar com chave de ouro, conheci uma mulher linda, que não ligava de andar em um Dodge podre e de chegar às festas fedendo gasolina. Depois de oito meses de namoro, obviamente casei com ela.

Após todo esse divertimento e sofrimento, decidi que era hora de encostar o carro e começar a desmontá-lo. Eu sabia que iniciar esse processo era um caminho sem volta e que seriam vários anos sem andar com ele. Hoje vejo que tomei a decisão certa. As peças do modelo A-Body (no qual foram baseados os Dodges nacionais) tiveram um aumento de preço absurdo desde então e funileiros e mecânicos da velha guarda, aos poucos, estavam indo conhecer São Pedro.

Por algumas vezes pensei em desistir, diante da dificuldade financeira, da falta de profissionais e peças. Porém, minha esposa nunca me deixou fazer essa besteira. Deixei de fazer e comprar muitas coisas legais e recentemente até vendi um Passat GTS 1986 para juntar mais grana (história pra outro post).

Enfim, sou um cara simples, em início de carreira, que não liga em andar de Uno 1.0 ou de Burgman 125 no dia a dia, mas que tem como objetivo um V8 em bom estado de conservação e com potência de sobra pra fazer viagens seguras com a família, sem medo de cair na estrada. Até o próximo post!


Por Elíphas Neto, Project Cars #30

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