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Project Cars Project Cars #346

Chevrolet Pickup “Boca de Sapo”: a história hot rodder do Project Cars #346

Olá, pessoal! Meu nome é Otacílio, sou de uma pequena cidade mineira chamada Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, e desde criança sempre tive forte interesse por carros antigos. Nasci na década de 70, e fui abençoado por ter na minha família dois aficcionados antigomobilistas, o meu pai “Nô” e seu irmão, o “tio Lula”, que têm respectivamente um Plymouth Belvedere 1957 V8, e uma pick-up Chevrolet “Marta Rocha” 1955, ambos comprados praticamente zero, 100% originais, e que permanecerão na família para sempre.

A Plymouth por várias décadas foi o carro de uso diário do meu pai, é muito confortável, e sempre curti passear nela, seja para ir ao sítio da família ou para as longas viagens para a praia. Em uma época onde não precisávamos usar o cinto de segurança, algo impensável nos dias de hoje, eu adorava viajar deitado no vão atrás do banco traseiro, embaixo do parabrisa, onde curtia a viagem, a paisagem, e ainda conseguia dormir confortavelmente. É um sedan enorme, raro por ser um quatro portas sem coluna, com lindas curvas e o rabo de peixe característico da época, muito confortável, bancos inteiriços enormes, e ainda o câmbio hidramático de botão, um charme à parte. Me lembro muito bem do seu ronco forte e das inúmeras vezes que pedia ao meu pai para acelerá-la para mim, e ele sempre afirmava sorridente: “é o ronco de um motor V8, não se fazem mais carros como este”. Ela está parada provisoriamente para uma restauração completa, e merece um tratamento especial pois no ano que vem completará 60 anos na família.

A pick-up Chevrolet “Marta Rocha” 1955 também me marcou muito, foi usada por vários anos na loja de móveis da família e estava aposentada quando, há cerca de 20 anos, foi completamente restaurada pelo “tio Lula” para seu uso pessoal nos finais de semana. Ela ficou incrivelmente linda, toda branca com o interior em couro vinho, e o meu tio se orgulha de contar suas histórias das exposições e dos vários prêmios que ganhou em MG. Com motor 6 cilindros em linha, original e completamente revisado, câmbio de 3 marchas no volante, é simples e elegante. Minhas principais lembranças são da sua beleza e do sucesso que fazia por onde andava.

Como sempre fui aficcionado por antigos e estava incomodado em ver a Plymouth parada, ofereci ao meu pai restaurá-la completamente, de presente, para que pudesse voltar a curtir com conforto e segurança o melhor carro da sua vida. Só que, para minha surpresa, ele ficou muito feliz com a minha proposta mas não aceitou-a, pois ele mesmo gostaria de restaurá-la, entendi e respeitei a sua decisão. Essa foi a oportunidade que faltava para realizar o meu sonho de infância, ter o meu próprio carro antigo, do meu jeito, com tudo o que gosto, um presente que me dei aos 40 anos.

Mas que carro comprar? Onde achar? Quanto pagar? E a reforma? Onde fazer? Quanto gastar? Inicialmente queria construir um Roadster 32, customizado no melhor estilo Boydster, um projeto de sucesso da parceria entre dois mestres americanos: no início da carreira o Chip Foose trabalhou com o lendário e saudoso Boyd Coddington. Para ter uma mecânica confiável, comprei um pacote completo do Lexus LS400, motor V8 em alumínio, 295 cavalos originais, injetado, câmbio automático quatro marchas com overdrive, dentre outras coisas.

Projeto definido, mecânica comprada, e qual seria o próximo passo?! Para viabilizar esse sonho conversei em São Paulo com alguns profissionais especializados que pudessem fazer todo o projeto, porém fiquei espantado ao receber orçamentos superiores a R$ 200.000 (é isso mesmo, mais de duzentos mil reais!) para fazer o chassis, carroceria em fibra, pintura, elétrica e acabamento do interior. Isso tudo usando a minha própria mecânica, claro, pois se quisesse uma nova deveria adicionar ainda mais uns R$50.000 ao orçamento inicial.
Na minha opinião esse preço é muito alto para um carro feito pra rodar, que não teria o objetivo de ser um belíssimo exemplar para exposição. Respeito e admiro esses profissionais, fazem verdadeiras obras de arte, mas não era o que estava buscando no momento…

Diante desse cenário complexo, bem distante do que eu imaginava inicialmente, comecei a pesquisar sobre projetos semelhantes e não achei nada muito detalhado no país, porém vi que não era um bicho de sete cabeças, e que conseguiria economizar mais de 50% do valor pedido… Sabe como?

Decidi que primeiro eu mesmo seria o responsável direto pela gestão de todo o projeto e pelo planejamento de cada etapa, escolha do melhor fornecedor combinando critérios como melhor preço, qualidade e pontualidade/prazo; segundo, eu mesmo compraria todas as peças seja no Brasil, nos USA, ou via importação, evitando atravessadores; e por fim também decidi que seria útil compartilhar o meu aprendizado na internet, para que outras pessoas com as mesmas intenções pudessem ter acesso ao conhecimento, dificuldades e lições que tive ao longo da minha jornada.

E o que a minha pick-up tem a ver com toda essa história?!

Como estava prestes a iniciar o projeto, e o investimento não seria pequeno, resolvi que era hora de combinar com minha esposa a minha decisão de começar o projeto. Ela sempre soube do meu desejo de ter um Boydster, e também compartilhava da minha admiração pelo projeto, porém fez o mesmo comentário de sempre: “o carro só tem dois lugares, nossa família tem três pessoas. Quem ficará para trás?!”.
Obrigado amor, você tem razão, e como te amo muito vou adiar o Boydster por enquanto, guardar a minha mecânica do Lexus, porém como todo gearhead tenho uma longa lista de desejos.

Foi aí que decidi dar início ao meu projeto atual: uma pick-up street rod, com motor V8, mecânica moderna, e banco inteiriço (3 lugares, é claro!).

Como já sabia que não seria fácil achar uma pick-up da década de 50, em bom estado, ampliei a busca para 3 opções preferidas: a Ford F-100 (poderia fazê-la parecida com a do mestre Chip Foose), a Chevrolet Boca de Sapo (pois acho linda a sua grade cromada, curvas bem definidas, e ficaria perfeita com mecânica moderna e rodas cromadas grandes…) ou a Chevrolet Marta Rocha que sempre gostei e me remete às ótimas lembranças da família.

Comecei a buscar a pick-up ideal em São Paulo mesmo, onde moro há mais de 16 anos, procurando anúncios na internet, participando de encontros de antigos, pedindo dicas para os amigos, etc. Minhas únicas exigências era que estivesse com a lataria em bom estado e com a documentação em ordem, poderia até ter placa amarela, para recadastrar, porém nada de “barato mas sem documentos…”. Outro ponto importante na busca foi contar com a ajuda de um mecânico experiente que entendesse os meus objetivos do projeto e pudesse me ajudar a avaliar a estrutura geral das “candidatas”. Após conversar com vários profissionais, escolhi o Luciano Miozzo, da Garage34, para me ajudar no projeto.

Foram alguns longos meses de busca e negociações frustradas, analisando candidatas boas, porém caras, ou com bom preço, porém destruídas. Cheguei inclusive a analisar ofertas em outros estados, e quase caí em um golpe de um estelionatário de SC que anunciou uma pick-up que nunca foi dele. Por sorte, segui à risca uma das minhas exigências: que tivesse o documento, que o bandido nunca conseguiu me apresentar. Por segurança, também pesquisei o documento no site do Detran, descobri que a pick-up estava em nome de outra pessoa, contatei o proprietário, e vi que tudo era uma grande farsa.

A busca foi quase uma eternidade para mim, até que uma noite vi um novo anúncio em um site de classificados (ML) de uma pick-up Boca de Sapo, ano 1950, com documentação, mecânica funcionando, lataria aparentemente em bom estado, e interior bastante mal conservado. Fiz contato com o anunciante, que me respondeu rapidamente, e já marcamos para vê-la pessoalmente na manhã do dia seguinte. A visita foi muito agradável, o dono era um cara legal, estava muito sentido em desistir do seu projeto porém tinha que vendê-la para dar entrada em seu apartamento, e felizmente tudo o que fora anunciado correspondia exatamente à realidade. Após analisar com muito cuidado, fazê-la funcionar, e confirmar a sua origem lícita, concluí a negociação.

A sua entrega foi emocionante, o vendedor fez questão de acompanhá-la, dirigiu-a pela garagem até a minha vaga, e visivelmente emocionado me fez um único pedido, que cuidasse bem dela, e me desejou muito boa sorte! Perguntei se gostaria de vê-la quando pronta, e ele me disse que não, estava abrindo mão de um sonho. Ok, Márcio, combinado, porém se você mudar de ideia poderá vê-la aqui no FlatOut!

Finalmente, após quase um ano de muita procura, pude me dar de presente uma pick-up Chevrolet 1950, um veículo robusto de carga que ajudou a construir a história do nosso país. Popularmente conhecida como “Boca de Sapo”, sempre fui encantado pela sua grade dianteira cromada, por todas as suas curvas fortes, e pelo alto potencial de personalização.

E quais foram as minhas percepções logo após a compra?! O chassis era original, em ótimo estado, mas a suspensão dianteira havia sido trocada por uma de C10, mas tinha sido mal instalada. A lataria aparentemente estava bem íntegra, porém não dava para ter certeza do que encontraria embaixo daquela tinta velha e desbotada. Tinha alguns pontos de ferrugem na base da cabine, assoalho é parte inferior das portas, tudo coberto com massa e pintado, além de um inexplicável teto solar, caçamba original com a madeira podre… Ou seja, para ficar bom de verdade, do jeito que quero, terei que substituir todas essas peças.

A sua mecânica ainda funcionava, motor 6 cilindros em linha e câmbio de 3 marchas no volante, precisaria apenas de uma revisão. Este motor tem muito torque, é ideal para o transporte de cargas na cidade, não desenvolve altas velocidades para longas viagens. Como tenho o objetivo de fazer viagens até 300km de distância, para participar dos eventos na região, decidi substituí-lo, mas com o coração partido pois está funcionando normalmente.

Seu interior estava bem sujo, porém não haviam grandes pontos de ferrugem, acredito que tenha sido guardado em garagem coberta mas com a janela aberta. O painel cromado era original, bastando nova cromeação, o velocímetro não era original assim como o volante e o banco. Não havia tapeçaria, conforme podem acompanhar nas fotos.

Passei alguns meses definindo todas as melhorias que queria fazer, avaliando opções de fornecedores preferenciais e quanto poderia gastar. Após definir todo o escopo do projeto, comecei a pesquisar tudo sobre a importação direta de peças e também a planejar minhas férias (EUA, claro, para trazer peças).

As primeiras peças que importei foram as rodas e os amortecedores, comprados na Summit Racing (summitracing.com) e enviados para o meu endereço no Shipito, consolidador de pacotes nos EUA (a caixa postal custa 50 dólares por ano, vale a pena!). Lá pude pedi ao pessoal para colocar os amortecedores dentro das caixas das rodas, o que me ajudou a economizar bastante no frete, e enviei para o Brasil pela DHL. Chegou em uma semana, é claro que foi taxado na alfândega, porém mesmo assim ainda ficou bem mais barato do que se tivesse comprado essas peças aqui…

E como será o projeto?! Meu objetivo é fazer uma pick-up Street Rod, com lataria original, motor V8, câmbio automático e mecânica moderna. Apelidei o novo membro da minha família de “The Blue Thunder” (o trovão azul), pois será pintada em azul escuro perolizado (midnight blue pearl, da PPG) e o motor V8 com 340 cavalos terá um ronco forte, como o estrondo do trovão.

Chega de conversa, é hora de começar a reforma da pick-up!

Em janeiro/15 levei a pick-up para o Flávio Berger, da Bergertec, em Indaiatuba/SP, para iniciar a primeira fase o projeto: a revisão completa da estrutura da pick-up, com o objetivo de melhorar o conforto, segurança, dirigibilidade e performance.

Ao recebê-la, o Flávio fez uma avaliação completa da sua estrutura e a primeira providência foi desmontá-la e colocar o chassis no gabarito, felizmente recebi a ótima notícia de que ele estava muito íntegro, e com todas as medidas originais. Como a base estava muito boa, começaram a trabalhar, e em cerca de 60 dias fez todos os upgrades necessários para deixá-la como eu gostaria:
– Reforço no chassis e novos coxins para instalação do novo conjunto mecânico: motor Chevrolet V8 312 CID + Câmbio automático TH700-R4;
– Rodas Foose Nitrous 18″x 8,5″ na dianteira, pneus Yokohama Advan Sport V103 255/40 ZR18 (99Y);
– Rodas Foose Nitrous 20″x10″ na traseira, pneus Yokohama Advan Sport V103 285/35 ZR20 (100Y);
– Suspensões Bergertec: Mustang II na dianteira e fourlink na traseira;
– Amortecedores QA1, modelo HAL-DS401, e coilover;
– Freios a disco e pinças de Chevrolet Opala na dianteira;
– Diferencial de Chevrolet S10 2014, com freios a tambor na traseira;
– Nova caixa de direção hidráulica (Chevrolet Astra).

Após a conclusão desta etapa, a pick-up voltou para a Garage34, com todas as peças substituídas na caçamba e no guincho, observe como ele ficou lotado! Toda a mecânica original foi retirada com muito cuidado, pois será vendida.

Agora ela ficará parada para desmontagem dos itens que serão enviados para nova cromeação, e enquanto preparamos o motor ela seguirá para a funilaria. Mas vamos segurar a ansiedade, estas etapas serão detalhadas a seguir.

Por hoje é só pessoal, por favor fiquem à vontade em postas suas dúvidas, críticas ou sugestão, terei o maior prazer em respondê-las. Um abraço e até o próximo post!

Por Otacílio Santos, Project Cars #346

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