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Este Porsche 935 de rua tem 750 cv e é um dos dois únicos que existem no mundo

Quando se é rico o bastante, pode ser que um superesportivo produzido em série não seja exclusivo o suficiente para você. Por sorte, existe quem esteja disposto a atender seus desejos mais específicos – como aconteceu com Walter Wolf, barão canadense do petróleo que, na década de 1980, teve bala na agulha para encomendar um Porsche 935 de rua à Kremer Racing.

Se você nos acompanha, sabe muito bem do que se trata o Porsche 935: praticamente um protótipo feito sobre o Porsche 911 de acordo com as regras do Grupo 5 que venceu as 24 Horas de Le Mans de 1979. É bem provável que também lembre de Walter Wolf, o cara que encomendou um Countach widebody à Lamborghini e, indiretamente, ajudou a salvar a companhia da falência com isto.

1976 Lamborghini LP 400 Countach 'Walter Wolf"

Wolf costumava frequentar corridas do campeonato de endurance da FIA com seu Countach e, numa dessas corridas, apaixonou-se pelo Porsche 935, que competiu pela primeira vez em 1976. Ele gostou tanto que, por volta de 1978, encomendou ao pessoal da Kremer um exemplar para as ruas. Com as verdinhas balançando na sua frente, fica difícil recusar uma missão dessas, por mais difícil que seja.

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Mas, pensando bem, não era tão difícil assim. A Kremer era uma das equipes independentes mais bem estruturadas da época, e tinha uma forte ligação com a Porsche – eles tinham praticamente todos os recursos técnicos da fabricante de Stuttgart à disposição, e não foi à toa que, com o aval da Porsche, eles puderam criar o incrível 935 “Moby Dick”, com um kit aerodinâmico extremamente ousado que deixava o carro praticamente irreconhecível como um 911, exceto pelo formato da área envidraçada. Era funcional, contudo: a dianteira mais baixa cortava o ar com mais facilidade, enquanto a traseira longa evitava turbulências e ajudava a reduzir  arrasto aerodinâmico.

Foi parte do segredo para o Porsche 935 fosse imbatível em 1979. E fica fácil entender porque, ao buscar um carro ainda mais incrível e exclusivo que seu Lamborghini Countach, Wolf buscasse um exemplar para chamar de seu.

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Você deve lembrar do outro Porsche 935 de rua que já passou por aqui: o carro do “dono” da McLaren na época, Mansour Ojjeh. Aquele era um carro incrível: um 911 com o kit do 935 na traseira, o flatnose na dianteira e todo o luxo que as versões mais caras e requintadas do nine-eleven podiam oferecer – além de um motor de 3,3 litros e 380 cv usado no Porsche 934, a versão de corrida do Porsche 911 Turbo.

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O carro de Wolf era diferente: ele tinha muito mais do bólido de corrida do que o exemplar de Mansour Ojjeh, com os faróis nos para-choques, enclausurados sob lentes de acrílico (deve ter sido uma odisseia torná-los legalizados para as ruas), e um body kit feito de fibra de carbono e Kevlar. A carroceria foi pintada de azul escuro metálico com detalhes em dourado e vermelho, combinando com as cores do emblema de Wolf – um “W” com um lobo dentro, também usado nos maços de cigarro Walter Wolf.

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Se um cara tem sua própria marca de cigarros, o que o impede de ter um Porsche 935 de rua? Isso mesmo: nada

Diferentemente do carro vermelho, o Porsche 935 de Wolf tinha exatamente o mesmo motor do carro de corrida, porém com um pouco menos de pressão no turbo por questões de durabilidade. Assim, em vez de 800 cv como a versão de competição, Wolf teve de se contentar com apenas… 750 cv, canalizados para as rodas traseiras através de uma caixa manual de quatro marchas seguindo exatamente as mesmas relações do carro usado nas 24 Horas de Le Mans de 1979.

Segundo a Kremer, por fora o carro de Wolf era 98% idêntico ao Porsche 935 que venceu em Le Mans – talvez os 2% restantes sejam os piscas no para-choque. Até mesmo as rodas eram de competição, com 16×11 polegadas na dianteira e 19×14,75 polegadas na traseira, calçadas com pneus Goodyear desenvolvidos especialmente para Wolf e fabricados sob medida. A suspensão tinha molas e amortecedores ajustáveis da Bilstein, e era 5 cm mais alta que a do carro de competição.

Por dentro, a maior diferença era o acabamento interno, que vinha do Porsche 911 Turbo e tinha revestimento todo em couro azul, com as canaletas das costuras dos bancos em vermelho e cintos de competição. Tem até um sistema de ar-condicionado, com uma única saída para o motorista.

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Assim que pegou a chave em suas mãos (depois de pagar o equivalente a US$ 2,3 milhões em valores atuais, se os boatos estiverem certos), Wolf levou seu Porsche 935 a uma Autobahn para testar sua capacidade, e chegou aos 338 km/h – o velocímetro, aliás, marcava em quilômetros e não em milhas, exigência especial. Na época os carros produzidos em série ainda não chegavam aos 300 km/h – isto só aconteceria em 1985, com a Ferrari 288 GTO.

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Wolf fez viagens pela europa e enfrentou trânsito com seu Porsche 935, dizem, e colocou mais de 10.000 km em seu hodômetro até vendê-lo, em 1987, a um colecionador chamado Angelo Pallavicini, que fez aquilo que não faríamos: trancafiou o 935 de rua em seu museu particular, e lá o deixou até 2013. Então, vendeu o carro à concessionária alemã Oldtimer Land, especializada em clássicos ultra-raros. As fotos do carro em estúdio são deles, que divulgaram o modelo depois de tantos anos porque ele agora está a venda.

Como você deve imaginar, o tipo de pessoa que compra um 935 Walter Wolf não é exatamente um DJ que adesiva Ferraris com gatinhos, nem boxeadores que envelopam supercarros com motivos exóticos. É um perfil bem mais low-profile, e por isso a Oldtimer se orgulha de preservar a privacidade de cada um deles. Assim, se o Porsche 935 de rua de Walter Wolf for vendido, provavelmente ficaremos sem vê-lo por mais uns bons anos. Aproveite bem!

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