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Project Cars Project Cars #382

Fiat Uno 1.3 seis marchas: a história do Project Cars #382

Então, obrigado pelos votos meus caros Flatouters de longa data (desde o finado Jalopnik) bem como aos leitores mais recentes! Essa família de apaixonados tem sido um diferencial na cultura automotiva brasileira.

Perdoem-me pelo trocadilho infame “UNO ZERO” em relação ao nome do projeto, dentre tantas outras piadas infames relacionadas ao nosso estimado, odiado, ignorado, porém sempre comentado, Uno 1.0..

O propósito deste PC não é transformar um Uno 91 em uma “relíquia” com frisinhos, ele não é um carro clássico. O propósito foi somente brincar (de forma séria) em fazer algo que nossas grandes fabricantes deixam a desejar nos seus modelos de carros populares, com intuito de reduzir custos (e/ou maximizar lucros), principalmente nas décadas anteriores. Procurei desenvolver soluções e evoluções para deixa-lo divertido de andar, tanto no que diz respeito a motor e potência quanto a estabilidade. Acredito que para explicar como cheguei a essa ideia maluca de transformar um Uno antigo e carburado em um com injeção multi-ponto e 6 marchas, é preciso relatar alguns fatos decorridos em minha vida automobilistaca.

Meu nome é Elton Ogg (vulgo Zorgg), tenho 41 anos, nasci e me criei em Curitiba, tendo minhas raízes automobilísticas oriundas das aquisições automotivas de meu pai. Tenho na memória um Opala branco impecável, ano 76 acho, com seis lanternas traseiras (!), tojo no painel dentre outros acessório comuns deste período fim da década de 70 e início de 80. Tínhamos um grande quintal, então com sete anos já manobrava os carros de casa sem o conhecimento dele (pelo menos até agora).

Neste período me recordo do meu pai ter adquirido um Fiat 147 verde ano 82, modelo Europa, retirado novo de uma das primeiras concessionária Fiat de Curitiba. O impacto de ver aquele carrinho de aspecto tão “moderno” entrando no quintal de casa nunca mais saiu de minha memória, Porém logo vieram as reclamações do meu velho em relação ao cambio impreciso, como isso era possível em um carro zero e blá blá blá. Nos anos subsequentes ele partiu para os VW, por onde ficou por muitos e muitos anos. Voltarei a falar disso ao final do PC e vocês ficaram surpreendidos (ou não).

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Eu, por minha vez, comprei como primeiro carro um Passat 76, para o qual já parti para carburação 2E, coletor dimensionado e alguns pequenos ajustes, realizados em oficinas de amigos. Após algum tempo com ele, me injuriei da vida e dos barulhos internos do carro, além de uma trinca suspeita na coluna ”A”. Então, pimba! Troquei-o por um Dodge Magnum ano 79, preto. E assim começou minha fase american way of life dos anos 70 em plenos anos 90, 25 anos na cara e curtindo a vida de Dojão, gasolina a R$0,90 e cerveja mais barata que água mineral.

Findaram-se os anos 90, menos meus profundos arrependimentos por ter vendido o Pretão (e um Dart 74 que tive nessa época) para pagar algumas parcelas da faculdade. Nem é preciso que nos dias de hoje eu talvez comprasse uma ala da faculdade com o valor dos dois. Melhor não pensar muito nisso..

O mundo dá voltas e eu precisava provar (ou colocar por terra) a teoria de meu pai, até então um profundo divulgador do “todo mundo odeia a Fiat”. Então foi assim que eu, ex-Passateiro e ex-Dojeiro, abracei a causa do Sr. Lampredi. Comprei uma Panorama de cor grafite (como diria um amigo, Panorama Rules!).

Ela foi onde definitivamente enfiei a mão na graxa e tive a coragem de aplicar tudo que havia aprendido nestes longos anos acompanhando F1, arrancadas no AIC, revistas especializadas (saudosa Oficina Mecânica), empurrando muito carro de madrugada e tendo que me virar com pouco dinheiro.

Após cerca de três anos usando diariamente a Panoramix, como fora alcunhada pelos amigos, o motor dela finalmente cedeu. E agora? Foi quando entrou na jogada meu amigo Fernando, vulto Altista. Nesta época eu tinha uma pizzaria e a Panorama era usada para tudo, inclusive algumas entregas quando a correria apertava.

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Então não havia jeito, eu e o maluco supracitado nos abraçamos e resolvemos refazer o motor.  Aprendemos duas duras lições: identifique as peças desmontadas e nunca — repito: nunca — deixe de substituir as juntas no intuito de economizar…

Após o retrabalho, utilizando aeças de primeira linha, o resultado final ficou ótimo! Mal podíamos acreditar que dois metidos a mexânicos conseguiram realmente por para funcionar um motor com retífica completa. De quebra ainda adquiri uma caixa de 5 velocidades revisada, a qual gerou uma foto e uma história que vale lembrar.

Procurando pela internet onde adquirir a caixa, encontramos um senhor português e sua filha, cadeirante, que lhe auxiliava nos trabalhos de recondicionamento dos mais diversos tipos de caixa. O senhor, proprietário de uma oficina humilde próxima ao autódromo, nos explicou que sua filha era responsável pela montagem das engrenagens enquanto ele realizava a parte mais pesada, logicamente devido as dificuldade motora de sua filha. Isso nos impressionou profundamente. Mas outra surpresa nos aguardava. O português nos perguntou se éramos fãs de corridas, ao que respondemos de prontidão “com certeza!”.

Ele no pediu para que o seguisse até uma porta lateral, onde após conversar rapidamente com alguém dentro do barracão, foi nos dada permissão para entrar. Ficamos boquiabertos, pois havia diversos carros da Stockcar e de outra categoria que imagino pertencerem a Copa Petrobras de Marcas.

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Olhando a volta, observei no fundo da oficina, em um canto escuro, algo que me chamou a atenção: um carro vermelho com o numero 27 no vidro frontal. Senti o batimento cardíaco aumentar, além dos olhos quererem dar sinais de suor. Sim, era o carro com o qual o filho do grande Gilles havia acabado de correr a corrida do milhão. Nunca fui muito fã de Jacques, mas a proximidade com este sobrenome realmente valeu a noite e nunca mais a esquecerei.

Sem mais delongas, como se diria aqui em Curitiba: ”Piá do djanho, pare de chorumelas e vá direto ao ponto que o molho da vina está esfriando”.

1471246_619616068102049_1187891168_nApós me desfazer da Panorama com dor no coração, confesso, pois não consigo lidar com os carros que tive como simples oportunidades de negócio ou meio de transporte, comprei de meu grande amigo/irmão Paulo o nosso futuro Project Car. O humilde Uninho branco estava parado na rua, pois ele havia adquirido outro carro e, por morar em condomínio, não havia espaço para dois carros. Então o pobre ficou na rua, após alguns anos de bons serviços. Entramos em um acordo e comprei-o. Achei-o ótimo, somente precisando de alguns ajustes nas portas e, apesar dos seus humildes 994cc, que geram apenas 47 cavalos, o Fiasa é girador, alem do fato da estrutura do Uno ser leve, quase não senti diferença em relação ao desempenho do motor 1.3 de 62 cavalos da Panorama.

Os dois possuíam carburação de corpo simples Weber 190, que apesar de econômico e simples, era extremamente frustrante no quesito desempenho. Para atender a legislação cada vez mais restritiva em relação à poluição, o excelente motor Fiasa foi sendo cada vez mais estrangulado ao decorrer dos anos.

Comecei a pesquisar muito, até encontrar em um ferro-velho especializado em Fiat uma solução possível e barata: Weber 495 TLDF, oriundo de um Mille Eletronic por módicos R$200,00, coletor incluso. Eliminado o EcoBox, houve a necessidade se colocar um fio ligando o positivo da ignição à válvula eletromagnética da lenta, anteriormente controlada pelo EcoBox. Esta válvula evita afogamento devido à condensação do combustível com o motor desligado, trancando o fluxo de combustível.

A diferença foi gritante. Animado com meu pequeno grande sucesso, praticamente plug n’play, pensei “porque não mexer no cabeçote?” Fui lá eu com a cara e a coragem (e um torquímetro de estalo) desmontar, levar para a retífica e dar um leve passe, além de substituir as válvulas de admissão pelas do Pálio Fiasa. Além dos R$220,00 da retífica, de algumas horas de trabalho na garagem ao som de Orange Crush do R.E.M, The Chain do Fleetwood Mac e algumas geladas, o motor voltar a girar novamente. E girou como ainda não tinha visto…

Não dou apoio, não gosto e jamais foi minha intenção testar meu carro em estúpidas corridas de rua. O intuito seria testar, assim que possível e nos moldes por mim desejados, em pista. Mas rapidamente percebi que acompanhava facilmente veículos de maior cilindrada e mais novos.

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E assim começaram os pequenos reparos DIY de lataria e interior, aprender a costurar, um acidente e a busca por mais potência e “tranquilidade” através da injeção eletrônica. Mal imaginava eu o que viria pela frente…

Por Elton Ogg, Project Cars #382

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