Monica, Felicia e Zoe: os carros batizados com nomes de pessoas – parte 2

Dalmo Hernandes 10 agosto, 2018 0
Monica, Felicia e Zoe: os carros batizados com nomes de pessoas – parte 2

Há alguns dias aqui no FlatOut falamos sobre carros com nomes de pessoas. Fomos relativamente rigorosos com o critério: deveriam ser carros, e não fabricantes com nome de gente, e deveriam ser nomes, e não sobrenomes. O assunto rendeu pano para a manga e selecionamos mais alguns casos interessantes.

Dito isto, vale fazer algumas observações: incluímos algumas marcas, com a condição de que seus nomes não fossem de seus fundadores, e sim de outras pessoas – como homenagem. E também alguns casos que não são exatamente homenagem a ninguém, mas que também são nomes de pessoas.

Monica

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No período entre o fim dos anos 60 e o começo dos anos 70 uma tendência surgiu na Europa: carros esportivos de luxo com motores V8 vindo dos Estados Unidos. Você já deve ter visto alguns deles aqui no FlatOut (em em outros lugares, também) – os ISO Grifo e Rivolta ou o Jensen Interceptor, por exemplo. E, entre os supercarros, o De Tomaso Pantera, claro. O Monica 560 foi outro destes carros, mas é mais desconhecido.

O Monica foi criado por um engenheiro parisiense chamado Jean Tastevin, que em 1955 herdou de seu pai uma fábrica de equipamentos ferroviários. O negócio era próspero e Jean, entusiasta de automóveis, conseguiu amealhar uma coleção que incluía carros de luxo da Aston Martin, Jaguar e Facel Vega.

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Esta última era uma marca francesa da qual Jean era um grande admirador, mas que em 1964 fechou as portas por problemas com seus motores, que sofriam quebras frequentes, e mancharam a reputação da Facel Vega de forma irreversível, forçando a fabricante a fechar as portas em 1964. Lamentoso por não poder mais comprar um carro de luxo feito na frança, Tastevin decidiu diversificar o negócio da família lançando sua própria fábrica de automóveis. Que ele batizou como Monica em homenagem a sua esposa, Monique Tastevin.

O Monica passou nove anos em desenvolvimento, de 1966 a 1973, e teve inúmeros conjuntos mecânicos testados – um motor de projeto original, um quatro-cilindros Triumph e um V8 Aston Martin – antes de, por questões de custo, adotar um motor V8 Chrysler de 285 cv. Jean Tastevin chamou o carro de Monica 560 por causa de seu deslocamento de 5,6 litros (340 pol³).

Era um carro bonito, com dianteira baixa faróis escamoteáveis e silhueta alongada. Mas era caro demais para o mercado – custava quase o mesmo que um Rolls-Royce Silver Shadow. Foram feitos 14 protótipos (!), dos quais sobraram três, e seis exemplares de produção.

 

Mercedes-Benz

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Mercedes 35 hp, o primeiro Mercedes

É comum que fabricantes de automóveis sejam batizadas com o nome ou o sobrenome de seus fundadores, ou acrônimos deles. No caso da Mercedes-Benz isto também é verdade: Benz é o sobrenome de Karl Benz, considerado o inventor do primeiro automóvel de verdade, com motor a combustão interna – o Benz Patent Motorwagen, de 1885. Sua esposa, Bertha Benz, também teve participação essencial nesta história: além de financiar o projeto, ela foi a primeira pessoa a fazer uma viagem de carro, dirigindo o Motorwagen e provando que aquela invenção curiosa tinha potencial.

O Benz Patent Motorwagen foi feito com a ajuda dos engenheiros Gottlieb Daimler e Wilhelm Maybach. Daimler era dono da Daimler Motoren Gesellschaft (DMG) e, paralelamente, começou em 1901 a fabricar automóveis projetados por outro engenheiro, o austríaco Emil Jellinek. Ele tinha uma filha chamada Mercedes Jellinek, nascida em 1890, e foi ela a inspiração para o batismo do carro: Mercedes 35 hp.

Emil Jellinek era um empresário de visão, e conseguiu tornar o Mercedes 35 hp muito popular entre a alta sociedade alemã. Nos anos que se seguiram, os carros da Mercedes conseguiram excelente reputação, o que levou a companhia dos Benz, a Benz & Cie., a procurar a DMG para uma fusão. Em 1926, então, foi criada a Daimler-Benz. No entanto, para aproveitar a boa fama do nome Mercedes, os carros eram vendidos como Mercedes-Benz.

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Irônico e triste foi o fim levado por Mercedes Jellinek. Ela se casou em Nice, na França, e viveu na cidade de Viena, na Áustria, com seu marid. Mas então veio a Primeira Guerra Mundial, que foi um verdadeiro desastre em sua vida: em 1918 ela deixou seu marido e os dois filhos e foi morar nas ruas de Viena. Pouco depois se casou novamente, com um escultor que era talentoso, porém pobre. Em 1939, Mercedes morreu de câncer nos ossos e foi enterrada em Viena no mausoléu da família.

 

Ariel

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O Ariel Atom é um dos favoritos de quem busca uma experiência de pilotagem “pura”. Dizer que ele é feito sobre uma estrutura tubular treliçada é meio impreciso – é mais acurado dizer que o Atom é uma estrutura tubular treliçada com rodas, motor, volante, banco e o mínimo de carenagem. Leve, com suspensão independente nas quatro rodas e equipado com motores que podem chegar a 365 cv (caso do Honda K24 turbinado), ele é extremamente rápido e ágil nas curvas, além de proporcionar uma condução envolvente e orgânica.

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Mas… por que “Ariel”? O nome que pode ser masculino ou feminino foi usado pela primeira vez em uma bicicleta do tipo penny-farthing (aquelas bicicletas de antigamente, com uma roda enorme na frente e uma roda pequenininha atrás) produzida no Reino Unido nos anos 1870. Em 1896, a Ariel se fundiu com outra empresa, a Westwood Manufacturing, que havia acabado de lançar um triciclo motorizado. Nascia ali a Ariel Motorcycles, que em 1902 começou a fabricar carros e, por isso, foi rebatizada como Ariel Motors.

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A Ariel Motors existiu até 1970, quando foi absorvida pela BSA (Birmingham Small Arms). Em 1999 o engenheiro britânico Simon Saunders, que desenvolveu o Atom como um projeto da faculdade, fez um acordo com o clube de proprietários de motos Ariel (Ariel Owners Motorcycle Club, ou AOMCC), detentor dos direitos sobre o nome, para batizar sua companhia.

Mas, afinal, o que significa Ariel? Pois bem: o nome vem do hebreu antigo e significa, literalmente, “Leão de Deus”.

 

Edsel

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Em 1957 a Ford viu que estava perdendo espaço no mercado norte-americano para os modelos da Chevrolet, que graças ao popular Bel-Air e ao sucesso do Corvette se tornou a líder de vendas. A ideia era reposicionar as marcas do grupo: enquanto a Ford seria responsável pelos carros mais baratos e populares, a Lincoln ficaria com o segmento mais caro e luxuoso. No meio das duas entraria uma nova marca: a Edsel, batizada em homenagem a Edsel Ford, filho de Henry Ford.

Henry Ford II, o neto de Henry Ford, não gostou muito da ideia – ele dizia que não queria ver o nome do seu pai “rodando por aí em milhares de calotas”. Uma pesquisa de mercado foi feita para saber o que as pessoas achavam do nome, gerando resultados inconclusivos. No fim das contas, como o primeiro carro da marca já era chamado internamente de Edsel, o nome acabou sendo oficializado em uma reunião sem a presença de Henry Ford II.

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Edsel: chamado de “um Oldsmobile chupando um limão” por causa do formato da grade, que para alguns também lembra a genitália feminina

Ele deve ter ficado furioso depois, porque a Edsel foi um fracasso retumbante. A Ford passou um ano fazendo uma campanha de marketing para a nova marca, dizendo que o mesmo teria desenho, mecânica e equipamentos revolucionários. No fim das contas, porém, o Edson foi considerado feio e caro, e ainda havia a questão do controle de qualidade – a Ford nunca construiu uma fábrica especificamente para o Edsel, o que tornou relativamente comuns casos de peças trocadas com carros de outras marcas do grupo. Por esta razão, a Edsel só durou três anos, entre 1958 e 1960. E a Ford perdeu US$ 250 milhões (mais de US$ 2 bilhões em valores corrigidos) com a brincadeira.

 

Adamastor

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Este é recente: o Adamastor P003RL é um esportivo português (de onde mais um carro com este nome seria?) que passou seis anos em desenvolvimento e agora está muito próximo de ser produzido. Agora, a Adamastor não tem este nome porque seu fundador se chamava Adamastor. Trata-se de uma referência ao personagem de mesmo nome no poema épico Os Lusíadas, de Luís de Camões, impresso pela primeira vez no ano de 1572. Adamastor era um gigante baseado na mitologia greco-romana, e simbolizava as forças da natureza que os navegadores portugueses tiveram de enfrentar em sua jornada. Seu nome deriva da palavra adamastos, que em grego quer dizer indomado ou indomável.

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O Adamastor usa uma estrutura tubular de aço inox com projeto aprovado pela FIA, carroceria de “materiais compósitos” e componentes de fibra de carbono, pesando apenas 850 kg. Os motores serão todos Ford, da família Ecoboost: um quatro-cilindros turbo de dois litros e 2,3 litros, e um V6 biturbo de 2,7 litros ou 3,5 litros. Números de potência e torque não foram divulgados ainda, mas a Adamastor diz que a versão mais potente do P003RL tem relação peso/potência de 520 cv/1000 kg. Considerando o peso de 850 kg, chegamos a 450 cv – que é a potência do motor V6 biturbo de 3,5 litros usado na atual Ford F-150 Raptor.

 

Skoda Felicia, Octavia e Fabia

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Skoda Felicia e Octavia dos anos 60

Como diversas outras fabricantes de automóveis, a tcheca Skoda começou sua vida produzindo bicicletas no fim do século 19, migrando para os automóveis em 1905. Em 1959 a fabricante lançou dois carros com nomes que também podiam ser de pessoas: o Felicia e o Octavia.

Ambos tinham visual muito parecido, mas o Octavia era um sedã ou perua, enquanto o Felicia era um conversível que podia ter capota rígida ou de lona. Ambos tinham motores de 1,1 ou 1,4 litro e tração traseira. O nome Felicia deriva do latim felix, que quer dizer “feliz”. No latim, felicia é o plural neutro de felix, e não se sabe quando foi que a palavra passou a ser usada como um nome feminino.

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Skoda Felicia e Octavia dos anos 90 e 2000

Já o Octavia tem uma história curiosa: este era o nome de uma poderosa família da Roma Antiga que mantinha estreitas relações com os imperadores. E o Octavia foi o oitavo modelo lançado pela Skoda em sua história, o que pode ser uma explicação para a adoção do nome.

Os nomes Felicia e Fabia foram adotados novamente décadas depois: o hatchback Felicia, lançado em 1994, foi o último modelo da Skoda a usar uma plataforma própria antes de a marca ser comprada pela Volkswagen. Já o Octavia ressurgiu em 1996, como um sedã/perua baseado na plataforma PQ34, usada por VW Golf e Jetta.

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Ainda há o Skoda Fabia, apresentado em 1999 e feito sobre a plataforma do VW Polo, a PQ24. O hatch também recebeu o nome de uma família poderosa da Roma Antiga, com um detalhe: fabia, em latim, quer dizer “aquele que cultiva feijões”.

 

Renault Zoe

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O elétrico Renault Zoe é o principal modelo da linha Z.E. (Zero Emissions) da Renault, que também conta com versões elétricas do sedã Fluence e do furgão Kangoo, além do pequeno minicarro Twizy. O Zoe foi lançado em 2012 com um motor elétrico de potência equivalente a 90 cv, atualizado para uma versão de 109 cv em 2018. Seu desenho é arredondado e futurista, e já vendeu mais de 90.000 unidades em seis anos.

Além de ser uma variação simpática de “Zero Emissions”, o nome Zoe vem do grego ζωή e quer dizer “vida”. Dito isto, nem todo mundo curte o nome: em 2010, quando a Renault já havia divulgado a escolha do nome, uma mulher entrou com uma ação judicial contra a marca exigindo que a decisão fosse repensada. O nome da mulher? Zoe Renault.

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Ela estava preocupada com a possibilidade de ser motivo de chacota, mas em novembro daquele ano a justiça de Paris declarou que a Renault podia usar o nome. Eles pelo menos podiam ter dado um Renault Zoe de presente a Zoe Renault, não?