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Project Cars Project Cars #76

Pensando rápido: a história do Puma GTS de Rodrigo Almeida

Conheci o termo gearhead no finado Jalop. Pra ser honesto, inicialmente não me identifiquei com a expressão – e há vezes em que ainda não sei se me enquadro no perfil típico da “turma dos carros”.

Cresci no meio deles, no entanto. Meu pai fazia manutenção de seus carros na oficina de um amigo e colocava a mão na massa provavelmente mais por hobby que por necessidade. Vivia em meio à graxa e lembro inclusive de um swap de CHT para AP na saudosa Ambulância – apelido de nossa Belina branca – em meados dos anos 90.

Contam que, enquanto criança, eu somente me acalmava com uma chave de carro na mão ou sentado ao volante da Ambulância. Veio a fase de decorar os nomes dos carros na rua. Logo em seguida chegou a vez dos passeios de Fusca com carburação simples do meu vô, que depois cedeu lugar a um Itamar de dois carburadores. Hoje me faz rir pensar que meus “gurus” diziam que nunca se deveria preferir carburação dupla à carburação simples devido à dificuldade de se sincronizar os acionadores…

Na família havia um Ford 1929 que nunca dei bola e chamava de “fubica”. Minha mãe foi levada ao altar neste Fordinho, que felizmente permanece entre nós. O que mudou tudo, no entanto, foi O Opala. Nada de “opalão”, “opalera” ou seja lá como o chamam a turma do G5 nos vidros. Para mim era O Opala e nada mais. Seis cilindros, hidramático, 250-S, com bancos inteiriços, ar-condicionado e teto de vinil. O Super Luxo era algo diferente. Seu único acessório era a famigerada antena que subia e descia ao apertar do botão adaptado embaixo da coluna de direção.

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Este Opala transportava meu avô todo ano do Rio Grande do Sul à Santa Catarina durante o veraneio, e embora eu sonhasse com isso, não foi o carro em que aprendi a dirigir. Com idade insuficiente para ver a maior parte das coisas que se passavam do outro lado do painel, já passava algumas marchas no Fusca 1600 – mas “não podia ir até a 3ª”. Para a minha idade, porém, acelerar até o fim da 2ª marcha do Fuca era adrenalina equivalente a cravar o pé em um Veyron de 1.001 cv.

Imagine então quando, em uma ocasião especial, disseram que naquele dia eu dirigiria O Opala. Era o xodó. Não podia ser tratado como um carro. Havia de se tomar cuidado ao fechar as portas, ao sentar delicadamente sobre o curvim dos bancos, dar a ignição seguindo um procedimento, uma série de checagens, um ritual. A preocupação em deixar uma criança guiar o Opala exalava pelos poros dos adultos, me aterrorizando ainda mais.

Mas a tormenta se passou quando posicionei o câmbio em D. Ou não. Ao pisar no acelerador me empolguei com a força, a traseira assentou, a frente subiu e eu não sabia se me atirava pela janela diante daquele pulo ou se desligava o carro em movimento. Tiraram-me do carro e insinuaram que eu ainda não estava pronto.

Cresci mais com medo do Opala do que com gana gearhead de domar a fera. Sinto vergonha de nunca ter dado bola para o Ford 29 e fico triste em mais ter me irritado que me divertido com os episódios de quebra do cabo do acelerador do Fusca, o que nos forçava a acionar o carburador com um barbante puxado pela mão. O tal espírito gearhead estava bem longe.

Em 2000 quis me tornar Randall Raines, mais porque a Eleanor era o Unicórnio do que por entender polegadas sobre os V8. Não queria que meu primeiro carro fosse um Corsa Wind branco com para-choques de plástico. Pedi ao meu pai um Maverick V8 já imaginando a pintura grafite com faixas pretas do Unicórnio de Memphis. Enquanto procurávamos, o tempo passou e os Mavecos eram cotados como Mona Lisas. O processo se repetiu com o próximo exótico da lista, o Karmann Ghia que em meses se tornaria um Monet automotivo.

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Quando recebi meu primeiro bom salário decidi que em apenas uma semana encontraria meu exótico antigo – e bateria o martelo antes que o mercado em processo de enlouquecimento o transformasse na próxima obra de arte barroca. No dia do insight vi do outro lado da avenida uma Puma GTS esguia, desfilando sem capota. Fui para a internet, fiz uma pesquisa de trinta minutos, descobri as diferenças estéticas no modelo ao longo dos anos, identifiquei a versão que mais me agradava, acessei um site de busca e agendei a visita. O processo todo não levou mais do que uma hora.

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Sim, ela era originalmente branca

O carro era tão baixo que mal chegava à minha cintura. Havia dois lugares somente. Atrás dos bancos havia um porta… algo. Algo muito pequeno. Em fotos era uma coisa, ao vivo era outra. Eu pensava principalmente nos meus pais. Sabia que me matariam. A ideia repentinamente parecia estapafúrdia. Mas pensei que seria covarde se desistisse e mandei carregarem a bateria.

Quando sentei na GTS me senti completamente estranho à posição de dirigir. Com o assento literalmente colado no assoalho e os pedais altos, acionava-se freio e embreagem quase que com chutes rápidos ao se esticar a perna. A posição é mais deitada do que sentada. Os engates de câmbio eram duríssimos e o volante mal saia do lugar com pneus 185 sem direção hidráulica. Tive dificuldade para dar a partida. Era necessário tirar um pouco de gasolina das bengalas sem pressionar muito o pedal para não afogar o motor.

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Esta foto dá uma ideia de como é a cabine de uma Puma do fim dos anos 70

O ronco do boxer era muito diferente do velho “Fuca” do vô. O sistema de escapes 4×1 com abafadores kadron estava corroído e deixava vazar chamas e os clássicos pipocos VW em consequência da mistura rica. Não havia cintos de segurança nem espelho do lado direito. Era noite, demorei para encontrar o interruptor da iluminação dentre os vários posicionados no painel forrado de couro. Após ter acionado uma buzina marítima e ligado por acidente os limpadores, surgiu por fim a iluminação verde dos seis relógios. O verde estava apagado, os mostradores imundos e nenhum ponteiro se movia. De alguma forma inexplicável, em se tratando de um avaliador não tão apaixonado por carros, a cena era extremamente hipnótica.

Coloquei o longo bico do carro na rua e quando os carros passaram pisei no acelerador até ouvir o Kadron berrar rouco. Soltei a embreagem-tijolo e lembro de ter pensado se estava sendo observado por todos os seres vivos ao redor de um raio de 100 quilômetros. Eu era um cometa automotivo varrendo a rua com chamas e pipocos saindo do escape ensurdecedor, defumado por um implacável cheiro de gasolina, tudo enquanto zigue-zagueava em alta velocidade lutando com a imprecisão da direção.

Não havia geometria, balanceamento, alinhamento, nada. Eu lidava com as famigeradas “férias” (pois folga não é o suficiente) no volante enquanto o final da quadra chegava. Olhei para o painel amedrontado pela arrancada vertiginosa. E aí descobri que ainda não estava sequer a 60 km/h. Quê? Exato. A Puma GTS 1978 mais latia que mordia, por assim dizer – e a proximidade do solo aumenta bastante a sensação de velocidade.

O final da quadra chegou e junto com ele, a primeira curva. Com muita dificuldade contornei aquela esquina e lembrei que ainda restavam outras três para completar a volta na quadra até a revenda. Parecia um percurso longo demais para ser verdade. Cheguei vivo, alucinado com minha velocidade média de 50 km/h. Tudo é relativo…

O carro não estava bom. Se estivesse, não estaria convencido de que era bom. A posição de dirigir era esquisita. Pipocos, fogo, cheiro de gasolina. Os bancos pareciam revestidos de carvão. A capota de lona possuía alguns furos. Os instrumentos não funcionavam. O volante puxava aleatoriamente para todos os lados. A potência era pouca. Segurança inexistente. O preço era absurdo para o estado de conservação daquela encrenca. O medo era ainda maior do que o causado pelo saudoso Opala durante a infância.

Traseira

Digo que não faço o tipo gearhead pois nunca fui a encontros em postos de combustíveis, estacionamentos ou shoppings. Não frequento arrancadas, não sou adepto de sistemas de som radicais. Nunca aderi às tribos dos rebaixados, rodões, adesivos, aerofólios ou outras dessas coisas que enfiam nos autos de hoje. Não tenho interesse em realizar passeios com um monte de carros iguais ao meu. Não quero chamar atenção, apesar de gostar de dirigir conversíveis – e sempre abominei a expressão “carro presença”. Gosto de vinil, toca-fitas e amplificadores Tojo.

O que eu diria se aparecesse com um negócio daqueles na garagem dos meus pais? O que diriam do destino do primeiro salário como adulto responsável? Certamente me matariam. Resultado de tudo isso?

“Faço o TED amanhã. Busco a Puma de tarde”.

 

Por Rodrigo Almeida, Project Cars #76

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