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Project Cars Project Cars #341

Project Cars #341: como salvei um Focus da perda total – e ainda fiz uma “road trip” pelos EUA com ele

Olá a todos e bem vindos ao último capítulo deste PC 341. Peço desculpas pela demora, sobretudo por motivações que contarei mais adiante. Talvez este post não seja tão gearhead o quanto vocês gostariam, mas espero que seja igualmente interessante.

 

O salvado

Minha última aquisição foi um Focus 2012 SE 2.0 Powershift com 70 mil km por $4100. Em linhas gerais o carro vendido aqui desde 2012 (no Brasil a partir de 2014) conta com 6 airbags, controle de tração e estabilidade, bancos aquecidos, controle de cruzeiro e comandos no volante, mas nesta versão tem rodas de ferro com calotas, freios traseiros à tambor e falta até o forro da tampa do porta malas. O sistema de som não conta com Bluetooth ou entrada USB, apenas uma entrada auxiliar. Como opcional o carro tem partida remota.

O carro teve perda total declarada e foi leiloado pelo dano sofrido na lateral, como pode ser visto nas fotos a seguir. Sim, este era o único dano. Logicamente que em um processo de recuperação é orçada a substituição da lateral traseira por uma chapa nova, uma nova porta e um novo retrovisor, pintura etc, o que faz o preço subir muito. Nada mais justo, já que o segurado quer receber o carro nas condições anteriores à colisão. Já quem vai reparar o carro de maneira independente tem que ser buscadas alternativas financeiramente viáveis.

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O retrovisor foi adquirido no desmanche por $100, embora de outra cor. Comprei a tinta correta e fiz a pintura da capa em casa mesmo (peças pequenas eu me garanto). A porta traseira danificada foi adquirida na cor do carro, por $250, completa. Apenas troquei o forro de porta, pois o doador tinha interior em couro claro e painéis em dois tons, muito bonito por sinal. Depois dessa sessão DIY, faltou apenas a reparação do painel traseiro.

Na inspeção do chassi (também feita antes do conserto ser iniciado) o inspetor garantiu que a lateral poderia ser reparada sem necessidade de troca: valor do serviço $780, efetuado em dois dias – quando o funileiro me ligou achei que ele daria estimativa de prazo, mas era pra dizer que o carro estava pronto. Então por pouco mais de $1000 eu estava com o carro reparado, apenas necessitando da inspeção anual.

Na inspeção anual as bandejas da suspensão dianteira foram condenadas por danos nas buchas, algo muito comum nesta geração. Digo isso porque corri os ferros-velhos e só encontrava bandejas também danificadas, mesmo em carros com baixa quilometragem. Lembre-se, a suspensão aqui não sofre tanto quanto no Brasil. Precisei de muitas ligações para encontrar duas que pudessem ser aproveitadas. Paguei $60 cada e $200 de mão-de-obra. Como curiosidade, o preço em concessionária é de quase $300 para o lado esquerdo e $200 para o lado direito: as peças são idênticas, embora espelhadas.

Neste momento você já deve ter me crucificando por colocar peças usadas em um carro tão novo, mas se as bandejas não resistem, fico com a solução mais barata. Lembre-se que o Focus é praticamente o carro de entrada da Ford (alguém compra Fiesta na América do Norte?) e não há status nenhum em ter um. Os freios passaram na inspeção, mas com ressalvas, pois as pastilhas estavam pouco acima do mínimo e os discos enferrujados. Somando tudo, o carro me custou em torno de $5700. Anunciei o carro por $8500 para avaliar a receptividade ao salvado e tive alguns interessados já no primeiro dia. Optei por não vendê-lo naquele momento.

O Subaru Impreza 2008 acabara de ser vendido para um entusiasta da marca (outro, na verdade) por $8200 e o Focus tinha se tornado meu único carro novamente. Quando adquiri o Focus já sabia que ele seria meu último salvado, pois na recuperação de cinco carros passei por três funileiros diferentes, três oficinas de inspeção e alguns outros profissionais questionáveis. Era o meu limite nesse ramo. Nesta época o meu visto de trabalho também estava para expirar e incertezas se aproximavam. Decidi colocar um pé no freio e focar no essencial, deixando o passatempo para um momento mais oportuno. Antes do meu contrato de trabalho vigente terminar consegui um novo emprego, mas devido à demora no processamento do novo visto fiquei três semanas sem poder começar no novo local. Em outras palavras, férias não remuneradas. Era setembro de 2016, com temperaturas já se aproximando de zero em Winnipeg. Decidi aproveitar esse tempo e fazer uma road trip na região central do Estados Unidos, onde a temperatura ainda era agradável. Outro motivo era que a mudança de emprego também significava mudar de cidade e província, rumo ao oeste.

 

Road trip

Meu planejamento para a viagem era simples: não há planejamento! Fui sozinho, sem destino certo, sem hotel reservado. Minha primeira parada foi em Deadwood, na Dakota do Sul, cidade que preserva um estilo do século XIX, época da corrida do ouro. O bar em que o lendário “Wild Bill” Hickok foi morto em 1876 ainda ostenta a referência ao acontecimento. Diz a lenda que no momento do assassinato ele tinha um par de oitos e outro de ases, hoje conhecida no Poker como a mão do homem morto (dead man’s hand). Outro lugar interessante nessa parada foi uma cafeteria caracterizada como um antigo posto de combustíveis Texaco, em que seus pratos recebem o nome de peças de carros: “- um amortecedor para o almoço, por favor!”.

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Depois segui para o Monte Rushmore, parada obrigatória. Esse dia terminou em Badlands, um belo parque nacional e sitio arqueológico, que recomendo a visita. Fiquei acampado ali por dois dias, fazendo amizade com os vizinhos e ouvindo suas histórias de estrada.

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Meu próximo destino foi o Colorado. As montanhas rochosas são uma das belezas naturais mais famosas daquele estado, mas Pikes Peak também fica lá. Uma parada para dormir em Colorado Springs, ao sul de Denver, e no outro dia pela manhã estava apontando meu poderoso Ford Focus Escudo-Pikes Peak para devorar as curvas da montanha. Para minha surpresa está tudo asfaltado (desde 2011, na verdade).

Na minha época de Gran Turismo 2 era estrada de terra ainda; Acho que dormi nesse meio tempo. Na descida fiquei de castigo 15 minutos no posto de inspeção, pois meus freios estavam superaquecidos. Logicamente havia uma loja de souvenires instalada naquele ponto, onde aproveitei para comprar mais algumas lembranças.

Próxima parada: Aspen. Eu parei lá só por causa da fama da cidade. O trecho de aproximadamente 80 km da CO-82 à leste de Aspen é também um trajeto imperdível. De lá segui para Salt Lake City, a única cidade do percurso que eu tinha vontade de conhecer.

 

Perda de potência

Durante minha visita à Salt Lake decidi dar um pulo no deserto de sal de Bonneville. Diz que tem um pessoal que quebra uns recordes de velocidade por lá, e como o acesso é livre meu objetivo era entrar para o Guinness também. Mas como carro é um bicho onisciente e prevendo que ele seria esmerilhado no deserto de sal, ele resolveu dar problema: na saída do hotel o carro custou a pegar e também perdeu potência. Luz de injeção acessa. Dirigi até uma Autozone próxima e lá eles puxaram o código de falha: bomba de alta pressão. Tudo isso numa sexta-feira, 4 horas da tarde.

Dirigi com muito custo até uma concessionária Ford, mas o representante tentaria encaixar o carro apenas no sábado pela manhã. Sete da manhã eu estava lá de volta, aguardando na fila que se formava. Às 2 da tarde recebi o mesmo diagnóstico: a bomba de alta pressão gerava apenas 40 psi, enquanto o correto seriam 210 psi. A peça deveria ser encomendada e estaria disponível apenas na quarta-feira seguinte. Perguntei quais seriam minhas alternativas para o final de semana e o mecânico veio com um simples fifty-fifty: 50% de chances de o carro voltar a funcionar normalmente e 50% de chances de ele parar de vez. Resolvi arriscar.

Meu próximo destino seria Yellowstone, mas minha ideia era rodar de volta pra casa, cerca de 2000 km, parando apenas para abastecer e comer. No pior dos cenários teria que ligar para um guincho me rebocar para a cidade mais próxima. Completei com gasolina premium e coloquei dois frascos de limpa bicos injetores. Vai que né?

Com a falta de potência o meu 0-100 km/h devia beirar um minuto. Saídas de semáforos eram dramáticas e o motor não conseguia desenvolver acima de 2500 RPM. Depois de algum tempo na estrada eu sentia que o motor lentamente voltava à vida, mais noticiáveis após 300 km rodados. O limite nesse instante já chegava aos 2700-2800 RPM Os 50% estavam a meu favor! Por fim, me senti confiante e decidi parar em Yellowstone.

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Acampei apenas por um dia no parque porque era o último final de semana da temporada de camping, mas fiquei com vontade de ter ficado por ali por pelo menos uma semana. De volta à estrada, dirigi a maior parte do trajeto pela Interstate 90, que em alguns locais tem limite de 80 mph (130 km/h). Hora de apertar o pé, com luz de injeção e tudo! Nesse último dia fiz 1545 km na volta pra casa. A média de consumo da viagem foi de 17.2 km/l. No total, 5343 km. Na penúltima parada para abastecer a luz de injeção apagou e o carro voltou a funcionar normalmente. Depois desse episódio já rodei mais 7 mil km e o problema não reapareceu.

 

Problemas com o Powershift

Na viagem o Powershift começou a fazer jus à sua fama. Tenho ciência de que é um câmbio automatizado, que contém dupla embreagem e requer maior manutenção do que um automático convencional. Esse problema só acontecia depois de algumas horas de estrada: após uma parada completa, em um semáforo, por exemplo, carro vibrava ao acelerar.

Quem tem câmbio manual sabe que esse é um sinal de que a embreagem chegou ao fim de sua vida. Mas existem três recalls para esse câmbio no meu carro, dois dos quais são extensões de garantia até 140 mil km /10 anos enquanto o último é relativo a reprogramação do módulo. Ao voltar de viagem levei o carro na concessionária, onde foi constatado que havia um problema. O prazo informado para reparo foi de três semanas, mas depois de três dias me ligaram para agendar a troca. Problema resolvido.

 

Mudança de cidade

edmonton

Em setembro de 2016 me mudei de Winnipeg para Edmonton. Dizem que me saí da cidade canadense com o pior inverno para a que tem o segundo pior inverno. Edmonton é a capital da província de Alberta, também conhecida como a capital do petróleo, terra do Edmonton Oilers de Wayne Gretzky, que tem até estátua por aqui. Era o momento de ficar mais próximo das montanhas, apesar de ainda cerca de 300 quilômetros.

Mudança

Existe aqui uma grande comunidade JDM, com carros provenientes do Japão. O Canadá permite a importação de carros com mais de 15 anos de uso e a proximidade faz com que a província vizinha de British Columbia seja a porta de entrada para esses veículos, ocasionalmente viajando até aqui. Quem quiser saborear um pouco visite JDM Connection ou JDM Cars Available apenas para listar duas empresas importadoras.

 

Seguro – público x privado

Em Manitoba, o seguro de veículos é gerenciado por uma empresa pública. Como não há concorrência, o processo é simplificado. O que governa o preço, além do veículo, é o histórico do condutor: cada ano sem sinistro ou multa grave aumenta sua pontuação (ou méritos). Já em Alberta o sistema é similar ao do Brasil onde várias empresas privadas disputam mercado: é necessário buscar corretores de seguros, solicitar cotações etc. etc. O valor do prêmio possui outros componentes, como endereço, garagem fechada, exatamente o se espera de uma empresa que minimiza riscos para maximizar lucro. Mas é de se esperar que concorrência diminua o preço de um serviço, certo? Pois vou citar meus números para exemplificar.

Em Manitoba o seguro completo do Focus ficou pouco acima de $1600 anuais, com cobertura de vidros e franquia reduzida de $300. A melhor das cotações recebidas em Alberta para uma cobertura ‘similar’ foi de $2867, porém sem cobertura do para brisa e $1000 de franquia (segundo a corretora, nenhuma apólice cobre danos ao para brisa). Estamos falando de um custo de quase 50% do valor do veículo caso eu acione a seguradora na ocasião de um sinistro! Apenas para constar, o status rebuilt do carro não influencia o preço do prêmio. Por fim, acabei ficando com o seguro mínimo (obrigatório), cobrindo apenas danos a terceiros e franquia de $500, por ‘módicos’ $1955.

Quando mudei para Edmonton cogitei comprar um JDM e passar o Focus pra frente num segundo momento. Cheguei a ver uma Subaru Forester (adoro a primeira geração), mas quando pesquisei o preço que seria segurar um carro de mão inglesa com minhas credenciais, desisti. Aqui estamos falando de seguro + franquia > 100% do valor do carro. Minha intenção é criar um bom histórico – deve levar uns cinco anos – para então pensar em adquirir um carro extravagante’.

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Em novembro instalei pela primeira vez pneus de inverno: decidi pelo modelo com pregos, que prometem maior aderência em superfícies com gelo. Nos invernos anteriores eu havia sobrevivido com os pneus all-season, mas não quis arriscar dessa vez, principalmente por ter economizado no seguro. Existem muitos vídeos no Youtube mostrando que um carro FWD com os pneus corretos pode inclusive ser mais eficiente em tração que um modelo AWD com pneus de verão. Na frenagem a diferença entre os compostos é ainda maior.

 

É o fim?

Como todos sabem, um Project Cars nunca acaba. Por isso eu queria finalizar minha série com um projeto novo, uma restauração, upgrade ou qualquer coisa que estivesse em desenvolvimento. E por isso eu fui postergando meu último texto. A verdade é que nada disso aconteceu: a mudança de cidade, minha aplicação para imigração e a chegada do inverno literalmente esfriaram os meus planos. Ainda penso em pegar um carro velhinho – talvez uma Subaru Forester (mão convencional), ou uma RAV4 ou CRV 98-02, por serem carros baratos, AWD/4WD e relativamente confiáveis. Tudo isso para que eu possa usar o carro sem dó. Mas, por enquanto, fico apenas na vontade. A aplicação para imigração já me custou boas noites de sono, um bom trocado, e não há previsão de terminar. Tive que manter os pés no chão para não evitar surpresas, já que o status provisório não me permite planos de longo prazo.

O Focus não é um carro ruim, mas também não é um carro que desperta paixões. Ele faz bem o arroz com feijão, mas quando preciso carregar o sedã com os equipamentos de acampamento ou esqui ele mostra suas limitações. Já pensei em colocar um rack de teto, mas a ideia não me agrada.

Recentemente comprei um jogo de rodas 18 do Fusion e nas próximas semanas colocarei o conjunto em definitivo. Como projetos futuros pretendo colocar freio a disco nas rodas traseiras, trocar o painel de instrumentos pelo modelo com display colorido (plug-n-play), fazer um upgrade no sistema de som: aparelho, falantes e melhor isolamento das portas (que já tem alguns grilos). Se aparecer uma oportunidade penso em adquirir também os bancos em couro. Isso se eu não acordar um dia e anunciá-lo para venda.

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Por fim, gostaria de agradecer o FlatOut pelo espaço, pela a receptividade ao projeto e por todos os comentários recebidos. Fiquem com outras fotos de outras aventuras que fiz com o parceiro. Um abraço!

Por Fernando Saccon, Project Cars #341

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Uma mensagem do FlatOut!

Fernando, todos os seus textos foram altamente construtivos a todos nós. Você nos mostrou um pouco da realidade canadense, as facilidades e dificuldades dos entusiastas por aí, e tudo isso enquanto salvava carros legais de um destino sombrio. Sua road trip pelos EUA foi um belo desfecho para esta série. Parabéns e obrigado por compartilhar tudo com a gente!

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