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Project Cars Project Cars #374

Project Cars #374: a história do meu Chevrolet Vectra GSi

Queria agradecer a todos pelos votos, sempre foi um sonho poder colaborar com o maior site automotivo do Brasil! Meu nome é Diego Silva, tenho 26 anos, sou Engenheiro Mecânico, moro em Salvador/BA e contarei para vocês um pouco da história do meu Vectra GSI 1994 vermelho Schumann. O objetivo desse Project car não é montar um canhão (bem que eu queria) e nem ser “zé frisinho” extremo, eu diria 90% original. Meu objetivo é ter um carro confiável para viajar e usar no dia a dia, com pequenas modificações estéticas e de performance, para dar um folego a mais e ter um visual mais condizente com um sedan esportivo. Quero mostrar também como é a convivência com o carro, passando algumas dicas de compra e manutenção para o modelo, DIY e fotos, muitas fotos!

Para começar, como de praxe, contarei um pouco sobre os carros que já passaram por mim e de onde vem minha paixão por essas máquinas, que está comigo desde quando me conheço por gente. Eu passava o dia inteiro desenhando tudo relacionado a carros e motores.

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Desenho que fiz em 1997 aos 7 anos. Acho que o conceito da fiat Doblô foi roubado de mim

Desde sempre, sou apaixonado por todos os tipo de carros. Tenho minha preferência por GM, mas gosto de todas as marcas. Meu primeiro carro, aos 18 anos foi um Kadett SL/E 1989, sem documentos, que troquei por um computador + R$ 800,00. Pois é, a ânsia pela liberdade a 4 rodas foi tanta, que resultou neste “excelente” negócio. A partir dele vieram alguns carros interessantes: Kadett GS, Suprema GLS 2.0, Gol GL turbo, dentre outros não tão interessantes.

 

 

Quando tudo começou

Apesar de não ser um grande entendedor de carros, meu pai sempre gostou de automobilismo em geral. Ele nunca foi do tipo de ligar a tv no domingo de manhã para assistir Senna correr, acredito que por isso eu não tenha nenhuma lembrança das inesquecíveis corridas. Por outro lado, tenho inúmeras lembranças automotivas. Neste período pré-1995, meu pai tinha um caminhão Mercedes 708 vermelho e por um tempo foi o único veículo da família. Com ele íamos para todo tipo de lugar e a convivência com o velho Mercedes foi me contaminando aos poucos. Sempre que chegávamos no condomínio onde morávamos, meu pai me colocava no colo e deixava eu guiar o caminhão, dando o mínimo de auxilio possível. Aquilo pra mim era o máximo e a paixão foi só aumentando.

 

Eu aos seis anos no meu playground favorito: a cabine da Mb 708

Nessa mesma época, nos mudamos pra um bairro de Salvador chamado Cabula, que era muito famoso pelos rachas noturnos. Eu tinha 5 anos, e me lembro com extrema clareza de alguns dias da semana, não muito tarde (acredito que por volta das 21 horas) ir para a grade do condomínio com meu pai, e ficávamos lá por horas vendo Chevettes, Fuscas e outros rasgando a reta do “Cabulão”, fazendo cavalos de pau, borrachões e sentindo aquele delicioso aroma de etanol e borracha queimada. Outros tempos, no que hoje é uma das avenidas mais movimentadas da capital. Por incrível que pareça, foi nessa época que me apaixonei pela primeira vez pelo Vectra GSi. Não encontrei vídeos do cabulão, mas achei essa outra jóia. Era muito comum, num lugar chamado Praia do Flamengo, a galera fazer “travamentos” em plena luz do dia. Ah anos 80/90. Detalhe para a belíssima trilha sonora.

Passem o vídeo para os dois minutos, a qualidade da imagem melhora

Esse era o clima da capital Baiana

 

O encontro com o GSI preto

Naquele mesmo ano de 95, meu avô por parte de pai estava com um belíssimo Santana GLSi Branco pérola, que ele havia comprado zero quilômetro um ano antes. Ele sempre teve carros GM (inúmeros opalas, veraneios e uma D20) e por algum motivo não estava gostando do Santanão. Um belo dia, ele aparece com um Vectra GSi preto, que acabara de trocar pelo Santana. Eu estava nesse momento, e lembro como me apaixonei pelas linhas daquele carro, e imediatamente achei muito melhor que o GLSi. Os anos foram passando, meu avô ficou doente e meu pai passou a usar bastante o carro. Viajamos, passeamos, e eu adorava ficar curtindo a brisa no teto solar.

Todo final de semana descia para garagem para lavar o carro, ligar e andava pra frente e pra trás (quem nunca?), louco para sair na rua. Sonhava que quando chegasse aos 18 anos, aquele carro seria meu. Doce ilusão. Hoje em dia, o Vectra GSi é um carro relativamente simples de se manter, mas há 15 anos, era um modelo defasado e de manutenção cara. Meu pai nunca foi de cuidar muito dos seus carros, e a manutenção do velho GSi foi negligenciada por anos. Uma quebra de correia dentada em 2005, quando o odômetro marcava 75 mil km, foi a gota d’água para o fim do GSi em nossa família. Ele foi consertado e vendido em 2006 e nunca mais ouvimos falar dele. Não tenho fotos dele, mas era exatamente igual ao mostrado na foto abaixo. Bom, chega de conversa, e vamos para o que interessa: o meu GSi.

 

A segunda paixão

Era final de 2015 e após ter uma decepção com a realização de outro sonho (gol turbo) estava meio desiludido com o mundo automotivo. Gastei muito dinheiro, porém cada acelerada com o carro era uma quebra. Voltei para casa guinchado 5 vezes e sofri com um carro já “cansado” de estrutura e com a falta de comprometimento dos preparadores. Meu avô infelizmente faleceu nessa época, e várias lembranças voltaram a minha mente.

Decidi que era a hora de realizar outro sonho: um Vectra GSi para chamar de meu. Comecei as buscas, e logo vi que não teria muitas opções aqui na região. Cheguei a tentar negociar alguns carros fora do estado, mas nenhum agradava (custo x benefício). Até que um dia, olhando nos sites de compra e venda, acho um GSi Branco a venda, com rodas réplicas 17” e muito bonito por foto. Mando mensagem para o vendedor perguntando se o Vectra ainda estava a venda e recebo a seguinte resposta: “De qual dos três você tá falando?”

foto 5

O cara simplesmente tinha três Vectra GSi na garagem. Marquei para ver o carro, com a intenção de comprar o branco. O azul era muito caro, e o vermelho não dei muita atenção, pois ele não falou que estava a venda.  Olhei o branco, e não gostei muito, faltavam alguns itens originais e estava com 240 mil km rodados. Até que olhei para o vermelho, jogado e empoeirado numa vaga ao canto, com altura e rodas originais. Perguntei a ele: “E o vinho, vende?” Ele responde sim, e lá fomos nós olhar o carro. Chegando lá, fiquei imediatamente impressionado com a integridade do carro. Faróis originais (menos os milhas), toca fitas Sirrah e 104 mil km rodados. Partimos para um teste drive e foi paixão a primeira “dirigida”.

Àquela altura, eu já estava hipnotizado e os defeitos do carro desapareceram. O freio estava baixo, direção puxando, dois pneus ruins, ar condicionado não funcionava, vazamentos, velocímetro não funcionava, marchas com engate duro, embreagem idem e falhava nas 5.000 rpm. Mas minha cabeça não me deixava pensar nisso. Cara, eu estava finalmente dirigindo um Vectra GSi. O cheiro dos bancos de veludo me fizeram voltar no tempo. Era o carro que eu esperei 10 anos para dirigir! Voltamos para o estacionamento e fechamos negócio imediatamente. O preço pedido foi o mais baixo dos três, mas ainda assim não foi uma “barbada”. O vendedor sabia o que tinha em mãos e apesar de ser o menos atraente dos três, ele era o mais integro e original, e isso para mim importava mais. Não consegui detectar todos os defeitos de imediato, e o vendedor percebeu que estava louco pelo carro. Enfim, poderia ter negociado melhor, mas a essa altura quem se importa, eu estava comprando um legítimo C20XE e como diria o velho Mike…

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Dicas de compra

Se você tem intenção de comprar um Vectra Gsi, preste atenção nessas dicas. Havia passado meses pesquisando sobre o modelo, e sabia exatamente os pontos a avaliar no momento da compra. Um dos pontos principais a se verificar na compra de um Vectra GSi, é o modelo do cabeçote. Não, não são cabeçotes diferentes. Deixe-me explicar: Como alguns de vocês devem saber, o grande diferencial do motor C20XE em relação aos outros 2.0 16v GM está no cabeçote. O modelo “Europeu” foi desenvolvido pela Cosworth (Coscast ) para ter alto fluxo, porém acabou tendo um efeito colateral de pouco torque em baixas rotações.

Possui válvulas de admissão de 33mm e escape de 29mm com haste de 7mm (números superiores aos 16v GM pós 1997), mola simples para as válvulas, comando com lubrificação por aspersão igual ao do 8v, as válvulas de escape possuem refrigeração a sódio, usa câmara hemisférica com vela central. O comando de válvulas é oco, o que resulta em menos inércia no giro. É um motor incrível, com detalhes que realmente fazem a diferença na potência e consumo, além claro, da injeção sequencial SFI. Os cabeçotes podem ter fundição feita pela própria Coscast (Vauxhall e Opel) ou pela KS (Karl Schmidt) da GM. Foram relatados problemas de porosidade na fundição do KS e alguns apresentaram problemas com o passar do tempo.

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Aí está o problema. Muitas pessoas acham que 100% dos cabeçotes KS dão problemas. Lógico, se puder evitar a compra de um carro com esse cabeçote, evite, mas não vale a pena deixar de comprar um carro íntegro só por causa disso. Nem todos os KS apresentam problemas (o meu é um desses), e um fator que ajuda no prolongamento da vida útil desse cabeçote, é a utilização de fluído para radiador de qualidade. Material fundido “poroso” + água pura no sistema = Tragédia. Sabemos que isso não é bom para nenhum carro, mas para um cabeçote com porosidade, o resultado e catastrófico. A água pura agride a superfície do metal, causando oxidação. O avanço dessa oxidação junto com a porosidade permite a passagem de água para onde ela não deveria estar.

Outro fator a ser levado em consideração no momento da compra são peças e acabamentos originais. Lanternas “made in Germany” são extremamente raras, a ponto de uma pessoa me perguntar se eu vendia apenas o jogo de lanternas do meu. Quanto ao Sirrah, nem preciso falar que hoje em dia pedem um rim por um em bom estado. Os forros de porta e teto tendem a se descolar com o tempo, e caso você ache um com estes itens impecáveis, leve em consideração no momento da compra. Raramente se vê um GSi com bancos 100% impecáveis, é normal haver um desgaste, principalmente no banco do motorista. Certifique-se apenas se é possível à recuperação da área afetada, pois conseguir um pedaço desse tecido não é uma tarefa fácil (eu que o diga).

O escapamento merece uma atenção especial, pois o abafador original é raríssimo e quando encontrado, tem o valor bem salgado. A antena elétrica é extremamente frágil, e muito dificilmente você irá encontrar um Gm dos anos 90 com ela funcionando.  Dei sorte nesse quesito. E por fim, uma dica que serve para qualquer carro, mas que nos GM acredito que seja um problema mais chato, que são os vazamentos.

O meu carro vazava tudo, óleo de direção, óleo do motor e fluido do radiador. Esse foi um defeito que não percebi de imediato, pois não tive a oportunidade de levantar o carro no momento da compra (mais uma vez, levado pela emoção rsrs). Algumas vezes, pensamos que são defeitos simples de resolver, mas não são vocês verão a seguir, e vale a pena uma conferida para negociar o preço no momento da compra.

 

Surpresas

Fechei a compra do carro e viajei, passei uma semana em Manaus e acertei que pegaria o carro na volta. Como vocês podem imaginar, foi a semana mais longa da minha vida, pensava no carro o tempo todo. No retorno a capital baiana, liguei imediatamente para o dono do carro, e fomos a garagem onde ele o guardava para pega-lo. Ao chegar, lá estava ele, lavado e radiante, nem parecia aquele carro empoeirado e tristonho encostado em um canto. O agora era só pegar a chave e levar a máquina para casa, wow!

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Ao chegar em casa, liguei para meu grande amigo Rodrigo Barros, companheiro inseparável desses devaneios automotivos, e gearhead de primeira (Já teve swift Gti, Focus XR, Palio 1.8R). A primeira ação, foi tirar tudo de dentro do carro e olhar a pasta de documentos. Não sei vocês, mas essa é uma das minhas partes preferidas.

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Logo de cara vejo que este carro ficou com o primeiro dono até 2008, foi comprado zero em uma concessionária em Brasília e levado pelo dono para o bairro da Tijuca no Rio de Janeiro. Porque ele não foi comprado na própria cidade do Rio de Janeiro? Bom, essa é uma boa pergunta.  Vasculho os papéis mais um pouco e em meio a notas de serviços, encontro uma carta.

Ficou um pouco difícil de ler pelo tamanho, mas vale a tentativa

É uma carta do filho de um dos donos anteriores, falando sobre os momentos inesquecíveis vividos nesse carro e pedindo para que ele seja bem cuidado. Nessa hora os olhos suaram, e imediatamente entrei em contato com o garoto para dar a ele notícias do carro. Ele havia deixado seu contato telefônico e ficou muito feliz em saber que ele seria muito bem cuidado, além de ter acompanhado a evolução do carro. Continuando a busca, vou até o step e me deparo com isso:

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Sim meus amigos, esse é o step original Pirelli P500 com chumbo de balanceamento de fábrica e completamente sem uso! O meu lado zé frisinho entrou em êxtase e mereceu uma foto para eternizar o momento:

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Eu e Rodrigo avaliamos o carro mais a fundo, vimos os vazamentos e detectamos uma pequena falha nos 5 mil rpm. Seguimos o nosso manual básico de aquisição de carros, que é a desmontagem  da caixa de ar, verificação e limpeza provisória de filtros, verificação de velas e cabos, limpeza da tbi com car 80 (Fazemos isso no primeiro dia com todos os carros que compramos). Após isso, ele já deu uma melhorada, mas ainda falhava. Fiz uma lista, e vi que não seria tão simples quanto pensei.

Decidi naquele momento, que faria tudo que o carro precisasse, utilizando peças originais sempre que possível. Para curtir o carro o máximo possível, determinei que seria feito o necessário para o pleno funcionamento do carro. Seguem algumas fotos da primeira semana comigo. Foi uma semana movimentada, e ele sempre pousando para fotos com velhos e novos amigos.

Determinei um teto do orçamento (ah doce ilusão!) e comecei a compra de peças, que começaria pelo básico (Filtros, correia dentada, óleo etc). Como naquele momento nada mais poderia ser feito, o dia estava acabando, então saímos para o primeiro “rolê” noturno.

No próximo post, listarei com detalhes tudo que foi feito no carro, mostrando valores de peças e mão de obra do que foi gasto até agora. Olhando para a lista sem olhar valores, parecem coisas simples, mas quando juntamos, a conta fica salgada. Até a próxima!

Por Diego Silva, Project Cars #374

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