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Project Cars Project Cars #392

Project Cars #392: a historia do meu Fuscão 76 “Outlaw”

Olá a todos. Meu nome é Ewerton Calebe, tenho 22 anos, sou estudante de engenharia e essa é a minha história. Como todo bom brasileiro, passei a infância (ou boa parte dela) dentro de um aircooled. O Fuscão da foto abaixo, um 72, motor 1500, foi o primeiro na minha história.

Todo original (na época em que isso pouco importava), impecável, motor afinado e com aqueles toca-fitas que até hoje seu pai lembra o nome e especificação. Foi o veículo dos primeiros anos de infância e das mais antigas lembranças que tenho.

foto 01

Mas como toda família, nós também tivemos um Fusquinha roubado. Lembro que chorei à beça, coisa de criança apegada. Foi um período difícil. Meu pai havia acabado de ser demitido da antiga Phillips-DDF e minha mãe, por conta do nascimento da minha irmã, também tinha pedido as contas na Ford. Isso foi no ano de 1997. Tempos complicados aqueles.

Mas como tudo na vida passa, também passou. Após uns seis meses, com as coisas normalizadas, meu pai resolveu comprar outro VW Fusca, o que minha mãe obviamente foi contra: dois adultos e duas crianças em crescimento precisavam de outro carro! Fusca é apertado, barulhento! Meu velho, malandramente, comprou um Gol LS 1600, ano 1983, dupla carburação à álcool. Ou seja? Outro Fusca! Não encontrei imagens (na verdade eram muitas gavetas de fotos e eu não quis procurar) do carrinho, mas era exatamente como esse da foto:

foto 02

Para os detratores (gente que em sua maioria nunca andou num desses), uma carroça da VW. Pra mim, um puta carrinho bom: Era um VW (Sim, isso era um argumento nos anos 90), fácil manutenção, espaçoso, estável e confiável. Fazia barulho, sim, mas um carrinho justo pra um jovem casal, com duas crianças e tantas outras demandas. Um carro feito para o brasileiro. Valente como todo carrinho VW das antigas, descemos e subimos serra durante anos a fio sem nunca ficarmos na mão. Meu pai é um típico “frisinho”, e o carro seguiu totalmente original, com platinado e tudo, exceto pela mudança de combustível (Álcool era treta, vai!) até o ano de 2003, quando acabou vendendo. Nos arrependemos anos depois. Aqui abro um parêntese.

Acho um tanto quanto exagerada essa pecha de “zé frisinho”. Ainda mais quando utilizada pelo cidadão que recorta carro, que o deixa inutilizável (pelo menos pra quem tem meia dúzia de neurônios em atividade), que deteriora de propósito um veículo pra seguir uma tendência que é  nada mais que uma cultura de destruição. Há vertentes diferentes nisso? Há! Se você não destruiu seu carro de propósito ou ainda não tem grana pra arrumar ele — coisa absolutamente normal no nosso mundo ± não precisa me crucificar: No mundo tem lugar pra todo mundo. Eu não gosto disso que descrevi e não acho bonito. Pode chamar meu carro de feio, se quiser. Fim do parêntese.

Após vender o carrinho pra um cidadão que nos esperou horas no estacionamento de um shopping, levou a grana no mesmo dia e saiu com um sorriso gigante (coisa que eu entendi só depois), outro VW entrou na família, dessa vez na forma de um Seat Córdoba, SXE, ano 1998. Um puta carro e que até hoje está com meu pai (que teima em não se desfazer dele).

Anos se passaram, comecei a trabalhar, fazer SENAI, juntar uma grana pro carro quando fizesse 18 anos e a vida foi seguindo. Não tive a felicidade de postar no facebook (que nem existia, eu acho) a pergunta clássica: tenho 18 anos e vou ganhar um carro e estou decidindo entre um Supra e uma Eclipse…

Não. Pra mim foi bem mais simples.

Um carro refrigerado a ar! Parente dos 356, 911! Projetado pelo próprio Ferdinand Porsche!

É esse. E convenhamos: Nenhum carro tem um histórico tão rico. Já foi pra guerra, já virou perua, já virou N outros carros, já virou esportivo, já teve copa (e ainda tem, inclusive nos “estrangeiros”), já ganhou rallye, já foi símbolo de um monte de coisa… Além de ser barato, Oldschool e de fácil manutenção. Não, não é nenhum Porsche de Stuttgart. Quero um fusquinha, dali de São Bernardo do Campo, mesmo.

E você pensava que 911 destracionava! Sabe de nada, inocente!

Só quem já comprou um fusca sabendo procurar, sabe o quanto é difícil achar um inteiro hoje em dia. Convenhamos: Foi produzido aos milhões durante décadas, com praticamente todas as peças intercambiáveis entre si, seja um 72 ou 96. Definitivamente: É difícil. Minha caçada começou, meio que escondido da minha mãe que até hoje não gosta dele e com a ajuda do meu pai. Olhamos todo tipo de fusquinha e eu não podia ver uma placa de “Vende-se” que eu parava pra bisbilhotar, nem que fosse pra dar uma volta de graça. E eu dei bastante volta de graça.

Olha fusca, dispensa fusca, olha cabrito, quer comprar cabrito, pai não deixa comprar cabrito, fica impaciente, vê que era cabrito mesmo… Odisseia. Até que de onde eu menos esperava, surge o “Geminha”. Trabalhei por dois anos numa indústria farmacêutica onde meu velho também trabalha. Convivi por dois anos com um senhor que tinha a joia na garagem e não sabia. Quando ele soube que estávamos a procura, deixou meu pai trazer o carango pra casa pois tinha certeza que eu ia ficar com o carro: Acertou, mizerávi!

 

Quase passei a noite dentro do fusquinha. Que sentimento indescritível aquele! É esse o carro… E quanto ele queria? Mais do que eu tinha. Outro parêntese.

Na noite em que o fusca dormiu na garagem a primeira vez, minha mãe quase enfartou. Não acreditava que depois de tanto tempo, seu filho de 1,90m ia comprar aquela tranqueira que ela havia se livrado. Me chamou de canto e a conversa foi mais ou menos assim:

“-Filho, é esse o carro que você quer?”

“-É esse sim, mãe!”

” – Poxa vida, é por falta de dinheiro? Eu te ajudo a comprar um carro!(sic)”

” – Não, é esse que eu quero mesmo!”

” – Mas é barulhento, fede a gasolina, não é confortável!”

” – Eu sei.”

Enfim, depois de negociar e conseguir chegar a um valor que cabia no meu bolso comprei o fusquinha. O carro estava em processo de reforma (Reforma, mesmo. Restauração é uma coisa muuuuito mais complexa e há muita diferença entre uma coisa e outra), o que é uma coisa boa e ruim ao mesmo tempo. O veículo era um VW 1300L – Sedan, pra VWB – com rodas de Brasília e freios a disco, que eram opcionais (ou você acha que só agora inventaram isso?).

Todo mundo fica meio cabreiro com fusca hoje em dia. Todo mundo até acha bonito um arrumadinho, mas não quer. A primeira frase da minha namorada quando entrou no geminha foi: “Até que não fede tanto”. Pois bem: O carro agora é meu! Vamos fazer essa bagaça ficar ajeitada!

Logo no começo, já precisei fazer a parte elétrica. Principalmente depois de ficar na mão algumas vezes com o dínamo e outras coisas que faiscavam durante a noite. Velocímetro deu pau, arrumei. Marcador de combustível (e boia) deram pau, troquei meia dúzia de vezes até comprar um VDO, lá na duque de Caxias, lubrificar com grafite e ser feliz. O motor que estava mais ou menos, mandei fazer com 1600cc. Com o câmbio curto do 1300, subia até parede mas não tinha final…Coisas que a gente só aprende com o tempo com carros antigos.

Dei aquele banho de loja (Leia-se total latas e ML) com tudo que era cromado e tinha fita dupla face pra colar, além de calotinhas novas e um som bacana com pen drive. Torçam o nariz. Eu também torço hoje (mas não tirei o som porque é bom e f8da-se). Nesse tempo comecei a frequentar eventos de antigos onde conheci as tendências que anos depois me norteariam pro que fiz no meu. Ah, teve uns faróis de milha também! Ah, e também teve peça que custam R$50 na internet e conhecendo gente por aí, comprei por R$10 original da VW. Se esses caras do ML descobrem esses velhinhos que guardam as coisas durante décadas…

O carrinho tinha estrutura boa, pintura decente, andava pra todo lado (embora às vezes falhasse) e eu já engatinhava em mecânica de motores boxer a ar (leia-se Fuscas e derivados).

Tinha confiança no carrinho e rodava bastante. E sempre tinha um ou outro na rua que parava pra contar histórias, pra saber quanto valia, pra dizer que já teve ou outra coisa que só quem tem carro antigo sabe. E que coisa boa é isso! Talvez uma das melhores partes da coisa toda.

Até que um dia resolvi ir para a casa dos parentes da namorada, em Santos…

As peças hoje em dia, assim como os carros, não têm a qualidade e durabilidade que tinham anos atrás, e eu, por não ter achado um condensador daquela marca alemã (que também não é a mesma, mas ainda sobressai) montei uma marca qualquer e desci a serra pela Imigrantes. Que delícia! Freio motor, paisagem, sensação de máquina do tempo. Rodei em Santos numa boa nos dias que fiquei e resolvi subir.

Tanque cheio, tudo ok… Na metade da serra o motor começa a ficar fraco. Minha namorada do lado cochilando e eu suando frio. Cada vez mais era preciso acelerar o carro pra manter a velocidade e o carro sem render. Não escutei a voz da lucidez e deixei pra subir a serra durante a noite, e quem conhece aquela serra sabe o breu que é. Fui cada vez mais devagar, mais devagar, mais devagar, até que percebi que não dava mais. Tive que parar.

Encontrei um lugar de acostamento, pela parte de dentro de uma curva pra minimizar a chance de alguém não vencer e acabar batendo em mim parado. Desci do carro levando pedrada dos caminhões e ônibus que passavam e fui olhar. Nada anormal. Platinado ok. Cabos de vela ok, carburador ok. Mexi no ponto, aumentei a proporção de gasolina na mistura e dei novo fôlego pro geminha. Mais alguns KM e o mesmo defeito.

O motor boxer trabalha muito quente. Bobina, alternador, capela… Tudo esquenta muito. Como eu mexi em tudo que deu, até troquei platinado e bobina, queimei a minha mão de uma forma que depois tive que limpar o volante bumerangue pra tirar as peles que ficaram grudadas. Mas a adrenalina é tão grande que nem dor eu senti. Ainda mais quando aquelas vans cheia de gente bêbada paravam perto da gente. Eu já carregava um taco de Baseball na época, mas talvez não desse conta. É você contra o mundo ali naquela situação. E não tem muita coisa mais chata do que ficar quebrado na estrada. Troquei o que tinha pra trocar (e fusqueiro anda com outro fusca no capô) e toquei pra frente.

Consegui chegar exausto ao topo da serra, mas me rendi e chamei o guincho, que me cobrou o rim pra me levar em casa frustrado (sério, cara de choro e os caramba) e ainda quem pagou foi a namorada porque eu tava liso. Nessa hora, juro que repensei aquela aventura toda e tive até certa raiva do coitado do carro, que disparava o alarme e me deixava mais puto ainda na cabine daquele caminhão… Um VW, por sinal. Chegando em casa, o filho da mãe ligou normal e entrou na garagem. Fui descobrir depois que era o condensador.

foto 12

Em cinco minutos eu trocaria e seguiria viagem, além de economizar uns R$350. Foi trocar essa merda por um de marca boa ( a marca da foto é a boa!) e o motor voltou a ficar como um relógio alemão (porque suíço já é demais). O prazer de ter um antigo voltou! Mas agora eu já era vacinado, pensava eu.

Ledo engano.

No próximo post vocês vão ver que nada é tão simples como um fusca. Nem mesmo manter um do jeito que você quer, quando se é um entusiasta.

A dica do dia é: Fusca é bom pra olhar, ver desfilando, ver o dos outros. Vai ter um pra você ver, vai…

A outra dica, (e essa é de ouro): leiam os textos que um amigo meu escreve na página Sobre Motores e Homens. Aposto que vão gostar.

Até o próximo, galera!

Por Ewerton Calebe, Project Cars #370

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