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Um hot rod com V-TEC e inspiração da F1: conheça o Ford Modelo A 1929 com mecânica de Honda S2000

Há muito mais tempo do que os muscle cars, os hot rods são um símbolo da cultura automotiva americana. Nós já contamos falamos bastante sobre eles em alguns posts especiais: a história dos recordes de velocidade em Bonneville, contada em duas partes (aqui e aqui); e a história das pin-ups e da Kustom Kulture, também em duas partes (aqui e aqui).

O que todos os hot rods tradicionais têm em comum? Eles são carros americanos dos anos 30, 40 e 50 com motores preparados, também americanos (com destaque para o V8 Flathead da Ford), pintura em cores vibrantes, pin-stripes, rodas mais largas e carroceria rebaixada, garantindo um perfil mais aerodinâmico, centro de gravidade mais baixo e stance mais agressivo.

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No entanto, com o passar do tempo a cultura hot rodder acabou, inevitavelmente, se diversificando. Primeiro, o significado do tempo ficou muito mais amplo, e não é incomum vermos carros pequenos com motores grandes (ou carros grandes com motores gigantes) sendo chamados de hot rods. Segundo: não demorou para que aparecessem hot rods que não eram totalmente americanos — afinal, o que te impede de colocar um quatro-cilindros turbinado e girador no lugar do vê-oitão? Ou mesmo de usar como base algo que não tenha sido fabricado nos EUA?

Claro, este tipo de conversa irrita um pouco os tradicionalistas, mas isto não quer dizer que um pouco de criatividade não faça bem a um hot rod. Lembra daquele Corolla com um V8 supercharged de 400 cv, o No Style? Hot rod. As criações da Caresto, com mecânica e design suecos, motores turbinados e inspiração clássica? Hot rods, dos bons. Nem precisa ter a cabeça tão aberta assim para entender.

Até porque, para compreender este carro, você precisa saber apreciar algumas heresias. O que é pior: tirar o motor de um Honda S2000, clássico roadster japonês que conquistou o mundo com seu quatro-cilindros girador e sua dinâmica impecável; ou colocar este motor em um Ford Modelo A, que ficaria muito melhor servido com, vejamos, um V8 Coyote 5.0 de Mustang?

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Esta talvez seja a maneira errada de abordar a questão. O carro foi construído por um jovem americano chamado James Schwartz, mas não foi criado por ele. Schwartz vasculhava a Internet quando topou com uma renderização feita pelo designer conceitual e entusiasta automotivo Aaron Beck. Dá só uma olhada.

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No mundo virtual, tudo é possível e tolerado quando se trata de experimentos automotivos — o máximo que pode acontecer é alguém dar risada daquela sua montagem malfeita no Photoshop (talvez até se a montagem for perfeita, pensando bem). De qualquer forma, em que planeta um Ford Modelo A customizado como hot rod com elementos de Fórmula 1 seria algo ruim?

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O caso é que James viu, gostou e pensou: “vou construir este carro” — simples assim. Felizmente, ele já tinha certa experiência com project cars (ele também tem um Scion FR-S com kit Rocket Bunny) e, assim, decidiu começar a colocar a mão na graxa.

A renderização feita por Aaron Beck não especificava o tipo de mecânica usado e, por isso, James decidiu ser criativo: fã de motores de quatro cilindros potentes e giradores, ele decidiu que colocaria a mecânica de um Honda S2000.

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O carro doador foi comprado em fevereiro de 2015 — um S2000 com quase 220 mil km rodados e nenhum problema aparente, custando US$ 8 mil (R$ 30 mil, em conversão direta). Por sorte, a receita do S2000 fez bastante sucesso nos EUA, portanto, não estamos falando de um carro absurdamente raro ou colecionável nos Estados Unidos. Bem, ao menos não ainda.

James poderia ter colocado um V8 LS Chevrolet no Honda (ou até mesmo um V10 de Dodge Viper, como este cara aqui prova que é possível) mas, depois de extrair a mecânica do roadster, ele decidiu vender as peças que sobraram. Talvez porque toda sua dedicação precisasse ser usada no S2000.

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O quatro-cilindros F20C desenvolve 240 cv a 7.800 rpm e um número que não importa 21,1 mkgf de torque e é acoplado a uma caixa manual de seis marchas. Além do comando de válvulas variável V-TEC que, como você já deve saber, altera a graduação do comando para uma mais agressiva a partir de um número determinado de rotações por minuto. Na prática, o motor tem seu funcionamento otimizado, grita mais alto e fica mais potente. Ter isto em um hot rod não nos soa como uma ideia ruim, nem um pouco.

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O conjunto mecânico, inalterado, foi transplantado para o chassi adaptado do Modelo A. O carro recebeu suspensão com amortecedores inboard e braços sobrepostos na dianteira e um eixo rígido multilink na traseira, certamente modernizando seu comportamento dinâmico. O interior traz uma curiosa mistura de elementos de carro americano clássico, esportivo europeu (olha só o volante Nardi), bólido de competição e, claro, S2000, com o belo cluster digital bem no meio do painel.

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O carro primeiro foi montado com o novo conjunto mecânico, e só depois que James viu que tudo estava funcionando em harmonia foi que ele deu início ao processo de customização estética.

A carroceria foi rebaixada na altura dos para-brisas, recebeu um scoop no teto (que fornece ar ao radiador, que fica na traseira — um enorme aerofólio (para nós, fica entre monoposto de Fórmula 1 e o Suzuki Escudo Pikes Peak) e pintura preta no estilo murdered out. Se você reparar bem, vai até reparar nos sidepods da carroceria, com direito a mais entradas de ar. Até os pneus parecem slicks riscados!

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De todo jeito, é impossível dizer que o aspecto final do projeto não ficou, ao menos, intrigante. Ao mesmo tempo em que é bastante fiel à projeção, o carro traz uma personalidade própria que nos parece impossível de reproduzir. E, mesmo que carros bastante customizados não sejam muito sua praia, é inegável que ele ao menos chama a atenção.

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Mas como será que ele anda? Infelizmente, é bem provável que a gente jamais consiga dar uma volta no hot rod, que foi batizado como “The Great Depression” (por ser um carro fabricado em 1929, ano da Grande Depressão nos EUA). No entanto, não duvidamos que seja uma experiência e tanto.

 

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