Edição diária: 16/06/2019
FlatOut!
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Project Cars Project Cars #107

Uma viagem de kei car pela cultura automotiva do Japão — conheça o Honda Today do Project Cars #107

Salve, galera do FlatOut! Meu nome é Kenji Ashimi, tenho 27 anos e moro na cidade de Hamamatsu, no Japão. Como muitos outros conterrâneos que vivem aqui — os chamados Dekasegis — há alguns anos resolvi “largar tudo” para tentar a vida trabalhando no Japão.

Meu interesse por carros começou desde cedo, quando assistia junto com meu pai às corridas de F1 ainda na época do Ayrton Senna, no entanto só vim a tomar gosto pelo assunto mesmo lá pra meados dos anos 2000, quando assisti o anime “Initial D” e este acabou se tornando a base de praticamente todo meu vício automotivo. A chance de vir para o Japão então era mais do que uma oportunidade de emprego: era a realização de um sonho.

Quando se fala em um Project Car diretamente do Japão, logo o que vem à mente é que seja um Skyline, um Supra ou alguma máquina de fazer drifts, afinal não faltam exemplos de esportivos bacanas e opções de preparação na terra do sol nascente. Ironicamente, o carro que me conquistou e se tornou meu primeiro projeto não tem nada a ver com isso — na verdade, nem mesmo esportivo ele é: trata-se de um kei car com câmbio automático, tração dianteira, mais de 150 mil km rodados e 20 anos de uso. Conheçam a história do meu Honda Today 1994.

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“Se tem quatro rodas e anda, é um carro.”

Tudo começou em outubro de 2011, quando finalmente tirei minha habilitação japonesa. Depois de anos no Japão sonhando em ter um esportivo, eu finalmente podia comprar o carro que quisesse — ou que meu dinheiro pudesse pagar… Para minha surpresa, fui presenteado pelo meu pai com o carro que pertencia à ele — que infelizmente não era um Hachi-roku.

Pra alguém que teve o caráter gearhead moldado por “Initial D”, um kei FWD não era exatamente o que eu mais desejava, mas não podia reclamar — havia ganhado um carro sem esforço nenhum, com a manutenção em dia e sem apresentar problemas mecânicos; O que mais eu poderia exigir? “Se tem 4 rodas e anda, é um carro” diria Takumi Fujiwara — o protagonista de “Initial D“.

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Assim era o Today quando o recebi: todo original e ostentando a “marca de novato” na traseira.

O carro questão é um Honda Today quatro-portas de segunda geração, identificado pelo código JA4. Suas especificações técnicas são bastante modestas, mas suficientes dentro da proposta do carrinho. O motor denominado E07A é um três-cilindros de 660 cm³ , 12 válvulas e injeção eletrônica que produz 48 cv p e míseros 5,8 mkgf de torque. Se os números não empolgam, o ronco pelo menos era divertido mesmo original.

Nada mau pra um motor tão pequeno.

A suspensão também não tem nada de inovadora e segue a receita básica: MacPherson na frente e eixo de torção na traseira. As dimensões da carroceria são realmente pequenas — mesmo se comparado com outros keis atuais — e lembram as do primeiro Mini: 3,29 m de comprimento, 1,39 m de largura e 1,35 m de altura. O lado bom é que por ser a versão mais básica, o carrinho inteiro pesa somente 690 kg, tendo como itens de conforto apenas ar condicionado, direção hidráulica, desembaçador e limpador traseiro. Nada de vidros, espelhos ou travas elétricas, alarme, air-bag, ABS ou até mesmo porta-copos… Because Race Car.

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Simplicidade por dentro e por fora.

Por que então usar um carro tão sem graça como base pra um projeto? “Você está no Japão! Por que não guarda pra comprar um Silvia ou RX-7?” é o que diriam alguns. De fato, se tivesse que citar uma razão lógica para a escolha, não haveria nada que justificasse, mas diria que o fato de ser meu primeiro carro e tê-lo recebido de meu pai contribuiu para isso. É o carro que dirijo todos os dias para ir a todos os lugares, do trabalho ao supermercado. O carro com o qual aprendi minhas primeiras noções reais de mecânica e tive minhas primeiras doses de adrenalina, mostrando que mesmo um carro com pouca potência poderia ser divertido. Aos poucos fui passando a gostar do Today e comecei a pensar em como melhorá-lo.

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Como o carro é automático inicialmente pensei num possível um swap de câmbio para um manual, mas acabei descobrindo mais tarde que já existiam versões do Today com câmbio manual de cinco marchas de fábrica e até uma versão “esportiva” — conhecida como Today RS.

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Today RS, um hot hatch kei.

Ainda que não fosse realmente muito diferente do meu, o RS tinha duas características principais que me interessaram: Carroceria duas-portas da “safra” pós-facelift — que particularmente considero mais bonita — e o motor E07A aprimorado com o sistema MTREC (Multi Throttle Responsive Engine Control) — basicamente um sistema de corpos de borboletas individuais pra cada cilindro que, junto com outras melhorias, elevavam a potência do pequeno motor à 64 cv, o limite de potência original permitida para um kei.

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O motor E07A MTREC e algumas de suas características. Este também era o motor do Beat, o pequeno kei roadster da Honda.

Além disso o RS contava com uma lista de equipamentos e acessórios um pouco maior: conta-giros no painel, vidros, travas e espelhos elétricos, spoiler traseiro, além de teto solar e faróis de neblina como opcionais. Tudo parecia bem bacana a não ser por um detalhe: um RS manual chegava a custar o dobro (ou até mais) do valor que eu poderia conseguir vendendo o meu. Dessa forma, achei que seria melhor esperar um pouco e ir fazendo upgrades nele aos poucos em vez de tentar trocá-lo, até porque por ser essencialmente o mesmo com carro com a mesma plataforma, havia a possibilidade de intercambiar peças, o que significava que eu poderia transferir praticamente qualquer upgrade que fizesse no meu para um RS manual futuramente. Nasciam aí as primeiras idéias do Project Car.

Já que iria ficar com o carrinho, decidi começar por algo bem simples e básico, apenas para tentar melhorar um pouco o aspecto geral dele. A pintura já estava desgastada e bastante queimada especialmente no teto, logo a primeira coisa a fazer seria repintar e polir a carroceria. O resultado me agradou e o carro parecia até mais novo.

Depois disso foram as rodas, algo fácil de se conseguir no Japão, principalmente no mercado de usados. Sendo assim, não demorou muito para encontrar no site de leilões do Yahoo um jogo de rodas RS Watanabe F8F nas medidas 13×4,5J em bom estado e na furação certa para o meu carro. Ainda que não fossem tão largas quanto eu desejava, já eram alguma coisa se comparadas com as originais de 12 polegadas.

Para calçá-las, optei pelos convencionais Bridgestone Sneaker 155/60/R13 que não são nenhum exemplo de performance, mas como não tinha muito conhecimento acabei indo na conversa de “são os mais recomendado para kei” dos vendedores. Sabe de nada, inocente.

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As primeiras modificações: Um trato na carroceria e novas rodas e pneus.

De qualquer forma, fiquei satisfeito com o efeito visual que as rodas e a pintura causaram e resolvi juntar dinheiro e aprender um pouco mais antes de partir para os upgrades de verdade. Nesse meio tempo fui convidado por um amigo que estava no Japão para fazer uma viagem gearhead: nosso objetivo seria ir dirigindo até Tokyo e passar pelos principais pontos de interesse (do posto de vista gearhead) no caminho. Como não havia nenhum outro veículo que pudéssemos usar, a missão de nos levar por essa viagem de 250 km foi dada justamente para meu JA4.

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#partiu Tokyo!

Carro lavado, óleo e fluídos checados, pneus calibrados, bagagem na mala, GPS configurado e lá fomos nós para a estrada. Nosso roteiro já estava determinado: partiríamos de Hamamatsu e passaríamos pelo circuito de Fuji Speedway, pela touge de Yabitsu (um dos cenários da quinta temporada de Initial D, lançada na época) e pelo estacionamento do Daikoku Futo até finalmente chegarmos à capital japonesa, onde iríamos passar pelos principais pontos da Shuto Expressway. Seria uma longa viagem para nós e para o Today.

Chegamos no circuito de Fuji no meio da tarde e embora fosse sábado, não havia muito movimento nos arredores; De qualquer forma tivemos a chance de encontrar alguns carros bacanas, visitar o histórico banking da Curva 1 do antigo traçado preservado até hoje e ver de perto um dos circuitos mais importantes do Japão.

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Nossa próxima parada foi na província de Kanagawa, onde fica localizada a Yabitsu Pass. A escuridão da noite e a ausência de postes de luz na touge nos impedia de conseguir boas fotos, mas a curiosidade de conhecer a estrada foi maior e subimos a touge assim mesmo — visitar um local que serviu de base para um dos cenários de sua série favorita era uma experiência divertida, especialmente por saber que mesmo sendo uma animação, aqueles locais existem de verdade e foram fielmente reproduzidos. Desde então tenho vontade de visitar todas as outras touges apresentadas em Initial D, algo que ainda pretendo fazer um dia.

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Não dá pra ver muita coisa, mas esse lugar já apareceu em Initial D.

Kanagawa também é onde se encontra o famoso Daikoku Futo, um estacionamento construído em uma ilha artificial na baía de Yokohama e um dos maiores pontos de encontro de gearheads de todo o Japão, onde se reúnem todos os tipos de culturas e veículos diferentes — alguns até de gosto duvidoso.

Ao chegar no local, nos deparamos com uma grande variedade de Lan Evos, Skylines, RX-7, entre outros; Em meio a tantos carros mais caros e modernos, meu JA4 era provavelmente o mais simples e modesto deles. Ainda assim era gratificante estar com o próprio carro num lugar tão importante para a cultura JDM.

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Daikoku Futo: Carros tunados, luzes neon, música eletrônica e um kei intrometido no meio.

Descansamos um pouco, tirarmos mais fotos e então partimos para os estágios finais da viagem. Saindo do Daikoku Futo tomamos a expressa sentido Tokyo por onde tivemos a oportunidade de passar por alguns pontos bem conhecidos por quem já jogou Tokyo Extreme Racer como o retão da Wangan Line — palco das famosas corridas ilegais noturnas e do lendário Mid Night Club nos anos 80/90 — a belíssima Rainbow Brige e o anel viário C1 Loop que percorre a área central de Tokyo.

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Se você já jogou Tokyo Extreme Racer provavelmente já passou por aqui.

Depois de duas voltas completas no C1 (infelizmente sem bater nenhum recorde) fizemos uma última parada em outro estacionamento em Shibaura. Lá encontramos um grupo de gearheads e tiramos mais algumas fotos antes de partir para Akihabara, onde passaríamos a noite.

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Gearheads… Gearheads everywhere…

Voltamos para casa no dia seguinte e o pequeno Today JA4 se mostrou firme e valente durante toda a viagem, o que de certa forma me deixava orgulhoso. Chegando em casa, dei dois tapinhas de leve na coluna A ao descer do carro, como um dono elogiando seu animal de estimação e agradecendo pelo passeio — eu estava realmente me apegando àquele carro.

Momentos da viagem registrados em vídeo.

Algum tempo depois iniciei uma atividade que mais tarde acabaria se tornando um dos meus maiores passatempos com o carro: sair de madrugada para dirigir nas touges.

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Com ajuda do Google Maps e do GPS do celular, eu localizava as estradinhas próximas que me pareciam mais interessantes e então pegava o carro e ia conferir pessoalmente o traçado. Naturalmente nem todos os locais eram tão divertidos quanto pareciam, um deles no entanto, se mostrou perfeito para o propósito: a Okuhamana Orange Road, ou simplesmente Orange Road.

Viciante é a palavra que define este lugar.

Sem nenhum semáforo e praticamente sem cruzamentos, a Orange Road é uma touge localizada ao norte da cidade de Hamamatsu e conta em seu trecho principal com mais de 50 curvas distribuídas em 10km de extensão. O fato de estar numa região montanhosa pouquíssimo movimentada mesmo durante o dia, faz dela uma estradinha perfeita para quem quer dirigir apenas para se divertir. Em pouco tempo, já tinha me tornado viciado nela.

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O traçado da touge e uma vista panorâmica de uma de suas curvas

Mas eu não era o único que desfrutava daquela estrada; Depois de algumas semanas frequentando o lugar, descobri que grupos de jovens gearheads se reuniam na touge aos sábados de madrugada para se divertir dirigindo, o que de certa forma era previsível, considerando a cultura automotiva de rua do Japão. O curioso é que embora o drift seja o estilo mais popular entre os hashiriya — como os japoneses chamam os corredores de rua — na Orange Road o que prenomina é o grip, onde o que importa é ser rápido na curvas tendo o máximo de aproveitamento da aderência dos pneus — daí o nome. Alguns levam a “brincadeira” tão a sério que até cronometram seus tempos na touge.

Um pouco do movimento nas noites da Orange Road. A sensação é de estar num autódromo.

Por ser uma atividade em vias públicas — e ilegal queira ou não — qualquer um pode chegar e participar, havendo sempre uma variedade de carros diferentes, sendo RWD, FWD, 4WD ou até mesmo kei cars. Com o passar do tempo, fui tendo mais contato com outros hashiriya e logo decidi me juntar a eles na prática do grip, passando a focar meu projeto nisso.

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Agora com um objetivo em mente era hora de pôr a mão na massa e dar continuidade ao projeto. Mas isso já é assunto para o próximo post. Obrigado à todos e até lá!

Por Kenji Ashimi, Project Cars #107

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