Ayrton Senna mostra como se pilota um Honda Civic em Suzuka

Dalmo Hernandes 8 junho, 2017 0
Ayrton Senna mostra como se pilota um Honda Civic em Suzuka

Não é novidade para ninguém a forte ligação de Ayrton Senna com a Honda durante seus anos na McLaren, a equipe com a qual o brasileiro conquistou seus três títulos em 1988, 1990 e 1991. Há uma mística em torno de seu envolvimento em projetos de rua da marca, como o Honda NSX – esportivo que, segundo consta, teve o acerto final de suspensão definido com a ajuda de Senna – e é fato que o brasileiro era muito estimado pelo fundador da companhia, Soichiro Honda.

O ano de 1989 pode não ter sido o melhor para Senna, que teria toda a razão em querer descansar depois da temporada, mas não o impediu de fazer uma pequena participação em um programa de TV que a gente conhece muito bem: o Best Motoring, que naquela época ainda não era International.

Claro, todos sabemos que Senna participou do Best Motoring em um especial sobre o Honda NSX, que registrou sua famosa volta com o carro em Suzuka. Mas o programa japonês sobre automobilismo também deu ao então campeão de Fórmula 1 a chance de testar outro Honda, um Civic SiR de corrida, no circuito.

Este vídeo é relativamente conhecido, com um bom punhado de uploads diferentes no Youtube, mas este é o único com legendas em inglês (que podem ser traduzidas para o português automaticamente pelo Google). Trata-se do quatro “Key’s Column” no Best Motoring, apresentado por Takayuki “Key” Kinoshita, experiente piloto de turismo que está na ativa até hoje e também é jornalista automotivo – atualmente, ele é integrante da bancada que escolhe o “Carro do Ano” no Japão. Na época, porém, ele era apenas um iniciante nas pistas, sendo a temporada de 1989 sua primeira no Campeonato Japonês de Carros de Turismo.

No vídeo, o próprio Kinoshita é o primeiro a acelerar, e pode ser visto contornando a famosa curva Spoon do circuito de Suzuka, que tem este nome pois, vista de cima, lembra mesmo uma colher (ou “spoon” em inglês) e tem dois pontos de tangência, e uma saída longa, que tende a levar o carro a um sub-esterço. O carro é o Honda Civic EF9 que competia na categoria N1 do JTCC, equipado com uma versão de 170 cv do motor B16. Na época, o comando variável VTEC ainda era novidade – na verdade, o B16 foi o primeiro motor Honda a contar com o recurso, que alterava significativamente o comportamento do motor dependendo da faixa de rotações. Já explicamos seu funcionamento aqui antes:

O VTEC (sigla para Variable Valve Timing and Lift Electronic Control, ou “Controle eletrônico variável de tempo e levante de válvulas”, em uma tradução literal) trazia árvores de comando com dois conjuntos de ressaltos (ou “perfis”) — um para rotações baixas e outro, para um regime de funcionamento mais alto. A partir de uma determinada quantidade de rotações por minuto, a central de controle do motor é alternada entre os perfis. Essa mudança de atuação sobre as válvulas é fortemente percebida e por isso ficou conhecida como “VTEC kick”.

A preparação para a pista era simples, incluindo a remoção do catalisador e instalação de uma ECU programável para chegar aos 170 cv a 7.600 rpm e 16,5 mkgf de torque a 7.000 rpm. O giro máximo do motor é de 8.200 rpm nos carros de rua, mas não duvidamos que o limite fosse um pouco maior nos carros de competição – é só ouvir o berro do quatro-cilindros para entender do que estamos falando.

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A curva Spoon, no canto superior esquerdo

A ideia é mostrar a melhor maneira de contornar a curva Spoon, aparentemente. Depois de Kinoshita, é a vez de Kiyoshi Komoda, que também é piloto e apresentador do programa (mais tarde ele ainda se tornaria instrutor do curso de pilotagem da BMW no Japão). Kinoshita comenta como se preocupou demais com a câmera filmando sua tentativa e, por isto, acabou saindo de traseira na entrada da curva, o que prejudicou seu desempenho.

Então, é a vez de Ayrton Senna pegar o Civic, acompanhado por Satoru Nakajima, que também estava na Fórmula 1 na época, no Honda CRX EF8 – versão fastback do Civic de quarta geração, pace car oficial do campeonato de turismo e equipado com o mesmo conjunto mecânico. Satoru comenta que o estilo de pilotagem de Senna é bastante eficaz, e chama a atenção para o modo como Senna cutuca o acelerador do carro para controlar sua trajetória. Trata-se da técnica de aceleração intermitente do Senna (você pode notá-la por volta de 1:36 do video), algo bastante peculiar e que era usado por alguns kartistas dos anos 1970. É uma forma de procurar balancear a aderência entre a dianteira e a traseira, mitigando um pouco do sub-esterço nas saídas de curva. É bastante difícil de executar de forma a realmente se ganhar tempo.

Ele também elogia o desempenho dos dois, que se saem muito bem apesar de estarem acostumados a máquinas completamente diferentes. O detalhe é que a filmagem aconteceu no dia seguinte ao GP do Japão de 1989, do qual Senna foi desclassificado por evitar uma chicane após o esbarrão forçado por Alain Prost, que se beneficiaria com um abandono do brasileiro. Como já contamos aqui, Senna voltou à pista pela única saída possível – cortando a chicane — e a punição lhe custou o título.

Na segunda metade do quadro da Best Motoring, Nakajima dá uma volta de demonstração em um dos carros em um onboard com um dos instrutores, e podemos ver detalhadamente a tocada para contornar o circuito japonês com eficiência: as marchas usadas em cada curva, o traçado ideal e, com alguma estimativa, a velocidade aproximada em cada trecho.

Nakajima e Senna já haviam sido colegas de equipe na F1 – em 1987 na Lotus, que naquele ano começara a usar motores Honda. Ou seja: de certo modo, ambos já tinham história com a fabricante japonesa. Em 1989 Nakajima continuava na Lotus (que passou a usar motores V8 Judd), mas era parceiro de Nelson Piquet, que fora para a Lotus em 1988, logo após a saída de Senna.

Curiosamente, haveria um novo embate entre Senna e Nakajima no ano seguinte, 1990. E foi em Interlagos: o brasileiro liderava a prova e tinha uma volta de vantagem sobre o japonês. No entanto, na hora de ultrapassar, houve contato entre os dois carros e, com o bico quebrado, o McLaren de Ayrton ficou com a aerodinâmica fortemente prejudicada, custando-lhe a vitória. Nakajima terminou em oitavo, Senna em terceiro.