Edição diária: 16/06/2019
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Coisas feitas pelas fabricantes de automóveis que não são carros

Por mais que o FlatOut seja um site sobre carros, sempre que cabe a oportunidade falamos de outras coisas — claro, desde que exista alguma relação com os nossos tão adorados automóveis. Hoje, para variar um pouco, vamos abrir o dia com uma curiosidade bem nesta pegada: coisas que as fabricantes de carros fazem que… não são carros!

É claro que, para muitos de vocês, isto não é surpresa nenhuma — especialmente a galera mais das antigas, que certamente teve ao menos um dos itens desta lista em casa. Não todos, obviamente, porque alguns sequer podem ser encontrados no Brasil…

Ah, e um detalhe importante: estamos falando de produtos que sejam, de fato, produzidos ou projetados por fabricantes de automóveis — diferentemente dos produtos licenciados, que apenas utilizam a marca.

 

Macarrão Giugiaro

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“Voiello Marille 1983”. Ainda que pareça o nome de um carro italiano obscuro, talvez um belo grand tourer ou algo do tipo, estamos falando de macarrão. Dito isto, se fosse um carro, seria um belo carro — o projetista da massa foi ninguém menos que Giorgetto Giugiaro. Mas por que o artista italiano que desenhou alguns dos automóveis mais vendidos (e mais bonitos) carros do planeta iria perder seu tempo com macarrão?

Primeiro: cara, Giugiaro é italiano! Os registros sobre ele não dizem nada a respeito, mas apostamos que ele levava seu macarrão muito a sério. Tanto que o tal Voiello Marille era sua ideia do “macarrão perfeito”. Na costa leste da Itália, em Torre Annunziata, no Golfo de Nápoles e ao pé do Monte Vesúvio, fica a Voiello, companhia italiana de alimentos fundada em 1879 por Giovanni Voiello.

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A filosofia da Voiello podia ser resumida na seguinte frase: “paixão napolitana com precisão suíça”. Em 1980, na busca do macaroni perfeito, o pessoal da companhia decidiu que seu novo formato de macarrão seria desenhado por um cara tão apaixonado e preciso quanto eles. Em uma entrevista concedida em 1991, Giugiaro contou o que a Voiello esperava do macarrão projetado por ele:

Apresentamos doze designs, eles escolheram quatro e os passaram para a engenharia de produção. Fomos convidados para Nápoles, para jantar em um restaurante chique: o macarrão foi testado com molhos de vários tipos.

Os requisitos eram os seguintes: o macarrão não deveria absorver muito molho; deveria aumentar de volume na água, de modo que um prato de marille deveria pesar a metade de um prato de spaghetti; no auge da nouvelle cuisine, deveria ser decorativo, “arquitetural”. Deveria, como todo macarrão, reter o molho e deixar a água ir embora. E deveria ser “palatável”, um termo técnico que indica a reação positiva da boca ao sabor.

Escolhido o formato do macarrão, que era “bi-tubular” e curvilíneo, a Voiello realizou um evento muito chique para seu lançamento, em 1983, na cidade de Milão. No entanto, apesar de toda a pompa, o Marille foi um fracasso de vendas: mesmo com todas as qualidades encontradas, seu formato irregular tornava o macarrão difícil de cozinhar e, em razão disso, sua distribuição durou poucos meses.

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Giugiaro não se lamentou pelo ocorrido — na verdade ele até gostou de desenhar macarrão, e agradece pela oportunidade: foi o Marille que tornou o nome de Giugiaro conhecido do público em geral, e não apenas dos entusiastas.

 

Video game Ford

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Esta é uma história que já contamos aqui, mas vale a pena repetir — pois, se as chances de você já ter comido um belo prato de Marille são bem baixas, o mesmo não pode ser dito do Telejogo: apesar de ser um console desconhecido da molecada que começou a carreira no PC e nos videogames mais modernos, a caixa de madeira com botões do tipo knob, sem joystick ou cartuchos, foi o primeiro brinquedo eletrônico do pessoal com mais de 40 anos.

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No início dos anos 1960, a Ford comprou a Philco. A fabricante de automóveis queria que a companhia de eletrodomésticos fornecesse os rádios de seus carros, e ainda aproveitaria para ganhar um pouco mais com os rádios e TVs. Com a incorporação, a Philco foi rebatizada como Philco-Ford, e a qualidade de seus produtos (não é incomum encontrar rádios usados, com mais de 30 anos, em pleno funcionamento à venda na internet) garantiu uma boa reputação.

Em 1977, a Philco decidiu fabricar sob licença o Telegame, console da Atari para o clássico Pong. Rebatizado como Telejogo e certamente o responsável pela famosa frase materna “DESLIGA ESSE NEGÓCIO, VAI ESTRAGAR A TEVÊ!”, o console tinha algumas modificações para aumentar a diversão. Citando a nós mesmos:

Ele tinha três modos de jogo — Tênis, Futebol e Paredão — que eram simples variações do Pong original, e não tinha joysticks, apenas dois dials – um em cada extremidade do console de madeira e metal — que controlavam o movimento vertical das barras na TV. Você precisava sentar perto da TV, perto do console e perto do seu oponente.

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No ano seguinte, foi a vez do Telejogo II que trazia mais modos de jogo e, pela primeira vez, joysticks separados da caixa de metal e madeira. Ambos foram um sucesso até o início dos anos 1980, mas com a chegada dos consoles de 8 bits, mais modernos, o Telejogo acabou perdendo espaço. Apesar disto, a Ford até pensou em continuar no segmento dos eletrônicos, mas desistiu por causa das leis de reserva de mercado.

 

TVs e videocassetes Mitsubishi

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Destes aqui você certamente também lembra: no Brasil, os televisores e videocassetes da Mitsubishi foram muito populares nos anos 1990 e 2000 — mesmo sem turbo e tração integral. E, na verdade, a Mitsubishi Motors é só uma das várias empresas que fazem parte da multinacional Mitsubishi Group. Esportivos com história nos ralis e cultuados pelo mundo todo são só parte do negócio da companhia.

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Uma de suas maiores subsidiárias é a Mitsubishi Electric, que foi fundada em 1921 e especializou-se não apenas em eletrônicos, mas em maquinário pesado, painéis solares, máquinas de produção industrial, materiais elétricos, elevadores e escadas rolantes e sistemas de ar-condicionado. Curiosamente, as TVs e  videocassetes, que eram seus produtos mais conhecidos, já não são fabricados desde 2012.

 

Geladeira Frigidaire General Motors

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Fundada em 1919, a Frigidaire foi por muito tempo uma das maiores fabricantes de eletrodomésticos — especialmente geladeiras — dos EUA. E, de 1919 a 1979, a Frigidaire pertenceu à General Motors. E não foi apenas nos Estados Unidos que os refrigeradores elétricos “by GM” foram um sucesso. Aqui no Brasil, a partir da década de 1930, também.

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Isto porque foi a General Motors do Brasil que começou a importar as geladeiras Frigidaire para cá, e até abriu uma empresa de financiamento ao lado da fábrica em São Caetano do Sul no ABC paulista. O sucesso foi tanto que logo os tais “refrigeradores elétricos” começaram a ser chamados de Frigidaire, mesmo quando eram fabricados por outra empresa. O nome “geladeira” ainda não era utilizado.

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No fim dos anos 40, com o aumento da demanda, a GM decidiu nacionalizar a produção da Frigidaire, utilizando a mesma planta de São Caetano do Sul. Sua fabricação começou em 1951 e, em apenas seis meses, 1.000 unidades foram fabricadas — considerando a época e o preço de uma geladeira, uma marca impressionante.

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A produção continuou no Brasil continuou até 1979, quando a GMB decidiu vender a marca Frigidaire à Brasmotor, dona da marca Brastemp. Foi o fim das geladeiras Frigidaire por aqui. Nos EUA, no entanto, a linha continua, produzida pela Electrolux.

 

Moedor de pimenta Peugeot

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A Peugeot se orgulha de ter dois títulos no Grupo B de rali, com o 205 T16; de ter conquistado a subida de montanha de Pikes Peak com Ari Vatanen ao volante do 405 T16 Pikes Peak; e de suas três vitórias nas 24 Horas de Le Mans. Eles também são muito bons em fazer carros compactos e rápidos, como o 205 GTI ou o 106 Rallye. No entanto, eles também dizem se orgulhar de seus produtos domésticos, especialmente moedores de sal e pimenta, que são fabricados há mais de 60 anos.

De design elegante e materiais nobres, como porcelana, prata e madeira de lei, os moedores e saleiros são muito bem vistos pelos entusiastas da cozinha na Europa. Com diversos modelos e acabamentos, eles custam entre  US$ 25 e US$ 170 (algo entre R$ 95 e R$ 660), podendo ser encontrados em diversas lojas de departamentos na Internet.

 

Salsicha e ketchup Volkswagen

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A década de 1970 foi muito importante para a Volkswagen. Ao mesmo tempo em que a fabricante que começou com o Fusca passava a produzir modelos com estrutura monobloco e motor refrigerado a água na dianteira — começando com o Passat em 1973, seguido pelo Golf em 1974 —, foi também a época em que a Volks começou a fabricar salsichas e ketchup.

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Na verdade, a salsicha se chama Currywurst, pois leva molho de curry em sua composição, e foi desenvolvida pela Volkswagen para servir a seus funcionários na fábrica de Wolfsburg, sendo produzida lá mesmo. Não demorou para que as salsichas começassem a ser vendidas nas outras fábricas e em supermercados — e a marca se orgulha de conseguir um ótimo sabor com 20% a menos de gordura e completa ausência de fosfatos, proteínas do leite ou glutamato.

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O Currywurst é uma das fast foods mais populares da Alemanha, e normalmente é servido com fritas e ketchup. E, em 1997, a VW começou a engarrafar seu próprio ketchup, que de acordo com a fabricante foi feito especialmente para combinar com suas salsichas, sendo mais viscoso e apimentado do que os molhos normais.

O mais incrível é que a VW vende mais salsichas do que carros — no ano passado, a marca vendeu 6,1 milhões de carros em todo o planeta, e 6,3 milhões de salsichas.

 

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