De Tomaso Mini: quando a fabricante de supercarros decidiu fazer um hot hatch

Dalmo Hernandes 19 abril, 2017 0
De Tomaso Mini: quando a fabricante de supercarros decidiu fazer um hot hatch

Que o Mini original é um verdadeiro ícone entre as fabricantes de automóveis, você provavelmente já sabe – contamos sua história recentemente, e mostramos também como uma companhia britânica está o transformando em um dos restomods mais bacanas que já vimos. Mas há sempre o que falar a seu respeito, e o post de hoje é um exemplo disto. Você sabia que a De Tomaso (sim, a fabricante italiana de supercarros) já fez um Mini? E que ele tinha um motor turbo de três cilindros? Pois é! É sobre ele que vamos falar neste post.

Na verdade, quem vai nos apresentar a esta pequena preciosidade é o entusiasta italiano Davide Cironi, que já apareceu aqui ao volante de um Honda Integra Type R, uma Ferrari 512BBi, um Alfa Romeo Giulia GTAm e de um trio composto por Delta Integrale, Escort Cosworth e Celica GT-Four. Cironi mantém um canal dedicado principalmente, mas não somente, aos carros italianos – e tem uma predileção especial pelos mais obscuros, como o Mini da De Tomaso.

A verdade é que a fabricação do Mini da De Tomaso ficava por conta de outra fabricante italiana, a Innocenti, que foi fundada em 1947 por Ferdinando Innocenti e começou construíndo scooters no fim da Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito, a Innocenti passou a fabricar automóveis com base em modelos britânicos, como os Austin e Morris da British Motor Company (mais tarde, British Leyland).

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Notou a diferença? Exato: eram idênticos

Os primeiros Mini fabricados pela Innocenti vieram em 1965, ainda com a carroceria original – apenas com novos emblemas –, e continuaram em linha até 1975, quando a Innocenti decidiu dar ao clássico britânico uma nova carroceria, mas moderna e alinhada com a escola de design italiana da época.

Foi assim que surgiu o Innocenti Mini 90/120, apresentado no Salão de Turim em 1974 e lançado no ano seguinte. O novo carro mantinha o chassi e conjunto mecânico do Mini britânico (ou seja, tinha um motor de quatro-cilindros, 0,9 litro e 50 cv na versão 90; e de 1,3 litro e 65 cv na versão 120), porém com uma carroceria completamente nova, projetada pelo estúdio Bertone – sob a batuta de ninguém menos que Marcello Gandini, projetista do Lamborghini Countach. Com linhas retas, faróis quadrados e grandes e lanternas traseiras horizontais, o Innocenti Mini 90/120 tinha jeitinho de Fiat, mas conservava as qualidades dinâmicas e o bom aproveitamento de espaço do compacto britânico.

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Era um carro visivelmente mais moderno e melhor acabado que o Mini britânico, o que lhe garantiu relativo sucesso nas vendas logo de cara – a ponto de a British Leyland considerar a substituição do desenho original pela carroceria criada pela Bertone. No fim das contas, como sabemos, isto jamais aconteceu, pois a British Leyland pediu falência um ano depois do lançamento do Innocenti Mini 90/120. E a própria Innocenti acabou vendida para a… De Tomaso.

Pois é: no meio da década de 1970, a fabricante de Alejandro De Tomaso procurava expandir sua atuação, e viu na fabricante italiana uma boa oportunidade de entrar no mercado dos compactos. Assim, em 1976, foi apresentado em Turim o Innocenti Mini De Tomaso. Dá para chamá-lo de hot hatch porque, diferente do original, o Mini desenhado pela Bertone tinha tampa trasaeira de hatchback, que dava acesso ao interior do veículo quando aberta. E também porque ele tinha um motor de 1,3 litro mais apimentado, com 72 cv.

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Ele também tinha visual mais radical, com para-choques envolventes de plástico em vez dos cromados do Innocenti Mini comum, spoiler dianteiro embutido, luzes de neblina, um scoop no capô e rodas de liga leve mais largas – que exigiram a instalação de alargadores nos para-lamas, embora ainda medissem 12 polegadas de diâmetro.

O Mini De Tomaso contava com a boa dinâmica do Mini original graças a sua suspensão com cones de borracha – que só não eram muito confortáveis. O pequeno esportivo competia com o próprio Mini britânico e com o Autobianchi A112 (este, baseado no Fiat 127, primo-irmão do nosso 147), e permaneceu em fabricação até o início dos anos 1980 sem grandes alterações, exceto por um aumento na potência de 72 cv para 75 cv.

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Em 1982, porém, encerrou-se o acordo entre a De Tomaso e a British Leyland para o fornecimento dos motores. A fabricante italiana, então, decidiu reformular seu Mini com um pequeno facelift e alguma mudanças técnicas importantes. Começando pela substituição do sistema de suspensão com cones de borracha por um arranho mais convencional, mas ainda independente nas quatro rodas – McPherson na dianteira e feixes de molas semi-elípticas com braços inferiores na traseira. Assim, o carro ganhou em conforto e manteve-se bastante ágil nas curvas.

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Depois, vinha a questão do motor. Diversos conjuntos mecânicos foram testados até que a De Tomaso se decidisse por um três-cilindros de origem japonesa, fornecido pela Daihatsu. Era um passo ousado colocar um motor japonês em um carro europeu, pois os habitantes do Velho Mundo ainda tinham certa resistência aos carros japoneses.

A decisão, contudo, mostrou-se acertada: além de mais confortável, o Mini da De Tomaso estava mais confiável em todas as versões – havia até uma básica com motor dois-cilindros de 0,6 litro. E mais: a Daihatsu tinha um motor três-cilindros turbo que ficaria excelente na versão esportiva, que foi rebatizada como Mini De Tomaso Turbo.

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O motor de 993 cm³ desenvolvia os mesmos 75 cv do quatro-cilindros de 1,3 litro, mas a potência chegava mais cedo e era suficiente para que, com o câmbio de quatro marchas padrão, o Mini De Tomaso Turbo chegasse aos 100 km/h em pouco mais de dez segundos, com velocidade máxima de 170 km/h! Nada mau para um carro de motor tão pequeno – embora o baixo peso, de apenas 710 kg, ajudasse nesta tarefa.

É exatamente um modelo desta última leva que Davide Cironi testa em seu vídeo. Dá para ver que o pocket rocket permite uma tocada bastante animada e que o ronco do três-cilindros é até empolgante, e que a aceleração é bastante modulável e progressiva para um motor turbo relativamente antigo. O carro muda de direção rápido e é bastante firme mas, de acordo com Cironi, falta estabilidade na dianteira em alta velocidade.

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O Innocenti Mini continuou sendo fabricado pela De Tomaso, incluindo o modelo turbo, até 1990, quando a Innocenti foi vendida à Fiat – e começou a fabricar, sob licença o Fiat Uno Mille e a Elba projetados no Brasil, com o estepe no compartimento do motor e suspensão independente com molas semi-elípticas (o modelo italiano usava eixo de torção e trazia o estepe no porta-malas). Hoje em dia, achar um bom exemplar do hot hatch é raro – um Mini De Tomaso Turbo pode custar acima de € 10.000.

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